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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O rosto na multidão - CARLOS HEITOR CONY


Tudo bem, cada um se diverte e se glorifica como quer. A mania agora é fuçar fotos do passado, sobretudo as das passeatas de 1968, documentadas à farta pelos bons profissionais do ramo. Apesar de farta, a oferta foi menor do que a procura, não deu para todo mundo deixar registro na história nacional. Mesmo assim, descontando os que morreram por isso ou por aquilo, é difícil encontrar um cidadão maior de 40 anos que não tenha dado sua contribuição heróica à luta contra a ditadura.
Parece um pouco com o caso dos figurantes dos filmes do Glauber. Volta e meia esbarro com um cara que garante ter feito figuração em tal filme -e, neste particular, minha glória particular é ter tido um irmão que, sem querer, fez figuração num filme de Hitchcock ("Notorius") que tem cenas passadas aqui no Rio. Cary Grant e Ingrid Bergman estão sentados na Cinelândia, tomando coco por canudinho, ali mesmo no Amarelinho, gente passando pra lá e pra cá. De repente, surge meu irmão, que estava indo para a Faculdade de Medicina, tomava o bonde ali perto, no Tabuleiro da Baiana. A cena é rápida, mas deu para consagrar a família.
Bem verdade que o Janio de Freitas e o Ruy Castro viram o filme 247 vezes para me desmentirem, mas, nos fastos familiares, ninguém nos tira essa glória.
Voltando às fotos da passeata. Não me procuro entre os heróis daquele tempo. Não participei de nenhuma delas, metade por preguiça, metade por ser militante do único partido que me interessa, o do "Eu Sozinho".
Quando chegar ao inferno (este dia não está tão longe assim), pedirei a Satanás um único favor: o de me dar uns gravetinhos e uma caixinha de fósforos para fazer a minha fogueirinha particular, onde purgarei meus pecados. Sozinho e mal-acompanhado.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Vênus virtual - CARLOS HEITOR CONY

Cheguei ao hotel em Florença. Constrangido, o dono me avisou que houvera problema com a linha telefônica. Se eu precisasse acessar a internet ele me arranjaria outro hotel.
No mesmo instante, chegou a moça para fazer o seu check-in. Avisada de que não teria linha para a internet, perguntou como e onde poderia quebrar o galho, navegar era preciso.
O dono indicou, 20 metros adiante, uma loja que dispunha de vários computadores, preço razoável. A moça gostou. Mandou subir a mochila para o quarto, nem subiu para ver como era, foi diretamente buscar as ondas digitais onde lançaria suas naves no oceano virtual.
Bem, subi ao meu quarto, tomei banho, desci para dar uma volta. Lá estava a moça agarrada ao teclado, a luz trêmula e azulada do monitor batendo em seu rosto.
Fui ver o "Putto in Giardino", de Verrochio, no pátio principal do Palazzo Vecchio. Almocei costeleta à moda florentina, tomei lentamente um chianti encorpado, com aquela cor viril dos vinhos da Toscana. Voltei ao hotel. A moça continuava navegando.
Ao cair a noite, saí para jantar, a moça continuava diante do mesmo monitor.
Jantei, voltei quase meia-noite, a tal loja estava deserta, somente uma pessoa navegava no mundo virtual: ela. Não almoçara, não jantara, não tomara banho, não mudara de roupa, não vira o anjinho de Verrochio nem a fachada de mármore de Santa Maria dei Fiori.
No dia seguinte, encontrei-a fechando a conta do hotel, indo para Bolonha. Perguntei se gostara de Florença. Sim, disse ela. "Adorei tudo. Amei os Botticelli no Uffizi".
A moça precisaria de duas horas só para enfrentar a fila e entrar no museu. Gostara sobretudo de "O Nascimento de Vênus".

sábado, 4 de junho de 2011

Verdades e mentiras do cinema - CARLOS HEITOR CONY

QUANDO A criancinha no colo da mãe disse que o rei estava nu, ninguém pensou em promover um ato público em defesa da roupa inexistente e do rei pelado.
Discretamente, os áulicos da comitiva real devem ter feito uma barreirinha, protegendo a nudez do monarca, que logo voltou ao palácio e se colocou em trajes convencionais.
Pulo do conto do Hans Christian Andersen diretamente para a sessão de cinema aqui no Rio onde um filme de Glauber Rocha estava sendo exibido pela milésima vez.
Uma voz se levantou da platéia, era de Madureira, não o subúrbio, mas o humorista homônimo, que declarou que o filme (não o Glauber) era uma merda.
Estupor entre as cultas gentes! Ranger de dentes!
Como podiam ter deixado um cara daqueles, que não pertencia ao povo eleito, penetrar no sagrado pátio, no templo da arte do Terceiro Mundo que salvará a espécie humana das tiranias e do uso desenfreado da Coca-Cola e dos filmes do Rambo?
Lembro uma sessão no velho Polytheama, onde se exibia um filme de Kubrick, "2001 - Uma Odisséia no Espaço". Silêncio sepulcral na sala, dividida na platéia propriamente dita e no balcão, ambos lotados e perplexos.
Nem mesmo a música de Richard Strauss quebrava o espanto de todos, antes, o acentuava, tornando-o monumental, epifania de um futuro que começaria naquele instante.
Uma voz vinda lá de cima, sarça ardente queimando no Monte Sinai instalado no largo do Machado, desceu como um pássaro de bronze avisando a todos:
- Estou entendendo tudo!
Ninguém se mexeu. Havia um eleito que estava entendendo aquilo tudo. Todos estavam salvos.
Voltando ao filme de Glauber, o desabafo de Madureira produziu o mesmo efeito.
Ninguém discordou, pelo contrário, todos ficaram mais convencidos ainda da grandeza do filme.
Eu próprio, que não estava lá para presenciar momento tão transcendental, folguei que afinal alguém tentasse colocar as coisas no lugar.
Glauber é um gênio, não houve outro entre nós. O diabo é que ele não encontrou um veículo apropriado, caótico como ele, universal como ele, para expressar a sua genialidade.
Teve de usar o material que estava à sua disposição, um material fantástico, sim, mas impotente para movimentar as turbinas submersas que iluminariam o mundo que ele pretendia criar.
Deu tiros em várias direções, partindo sempre do eixo imóvel de suas raízes e de seu tempo -tempo que ele criava com um grão de loucura que não fazia sentido, mas fazia bonito, um bonito redundante, formado por lugares comuns gritados por seus personagens ("O cinema do Terceiro Mundo venceu o capitalismo ocidental na Guerra do Vietnã!") ou brandidos por flâmulas coloridas na ponta de fuzis descarregados -todos os filmes dele têm esse balé de bandeiras, estandartes que rodopiam enquanto uma voz em off, solene e ameaçadora, garante que o homem vencerá o dragão.
Não há humor nem ironia em seus filmes, as mensagens são as mesmas, extensas, com um sentido que só ele entende: o fraco é o forte e o forte é um filho da puta.
Faltou a Glauber ter inventado uma arte que não fosse o cinema, que transcendesse o cinema.
Poesia, romance, teatro, ópera, embolada sertaneja, todas as expressões populares ou eruditas de sua visão de mundo, tudo o que ele tentou na busca de uma linguagem própria, não passou de um genial delírio no qual ele acreditava, como se tivesse a um passo da descoberta definitiva e vital.
Seria o caso de perguntar: o que o cinema representava para Glauber Rocha?
Na minha opinião, o cinema para ele era um duende infantil, que habitava salas escuras, a cada sessão se materializava, depois retornava à dimensão gasosa de uma coisa inexistente.
Dou um exemplo que parece não ter nada com Glauber. Toda a vez que passava em frente ao cinema América, na praça Saens Peña, Adolpho Bloch pisava de mansinho e falava baixo.
Ali ele assistira em criança à "O Corcunda de Notre Dame" diversas vezes, pensava que o corcunda morava ali, se não estivesse trabalhando na tela, tocando o seu sino de bronze, ele estaria ali nos seus domínios de duende, protegido pela escuridão do salão deserto, até que um contra-regra diabólico o despertasse e o obrigasse a ser o monstro iluminado que metia medo nas criancinhas. Uma forma de ver e sentir o cinema como a verdade.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Uns braços! - CARLOS HEITOR CONY

Já contei a entrevista que fiz com Francisco Mignone por ocasião de seus 80 anos. Como qualquer jornalista imbecil, perguntei-lhe sobre seu compositor preferido ao longo de tão longa vida. Com aquele jeito malandro que ele tinha -e que o tornava tão simpático-, o maestro disse que foi mudando com o tempo.
Aos 30 anos, quando lhe faziam a mesma pergunta, ele respondia que gostava de Beethoven. Aos 50, a resposta era outra: Bach. Mas, aos 60, quando nada mais devia a ninguém, respondia com a verdade que escondera durante tanto tempo: Puccini.
Ao iniciar a carreira de compositor, ele se sentiria constrangido em confessar sua preferência por um autor de ópera italiana. Roncava os grandes nomes que fizeram a glória musical daquele miolo da Europa Central.
"Mas perdi a vergonha", disse ele.
Comigo aconteceu coisa parecida em relação a Machado de Assis. Aos 30 anos, confessava meu amor por "Dom Casmurro". Aos 40, fixei-me em "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Aos 50, assumi definitivamente "Quincas Borba", e fiquei com ele até hoje.
Quem sabe o bem ou o mal que se esconde nas preferências que vão mudando com o tempo?
Pulando da música e da literatura para a mulher (não parecem, mas têm tudo em comum), conheço um sujeito que já foi vidrado nas pernas de Cid Charisse, nos olhos de Lyz Taylor, nos seios monumentais de Sophia Loren. Só recentemente descobriu que a atração maior de seu desejo eram os braços. Não sei se ele andou lendo o conto de Machado de Assis. Outro dia, encontrei-o bestificado no meio da rua. Perguntei o que havia. Ele parecia encantado, fora do mundo. Respondeu num gemido de luxúria: "Vi uns braços!".
E mais não disse nem foi preciso.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O Estado laico - CARLOS HEITOR CONY

Como as bolsas das senhoras e o comprimento das saias, há palavras que entram e saem de moda nos discursos de autoridades e nos textos da mídia. A onda agora deu relevância à transparência, à ética, aos valores republicanos e ao Estado laico.
Desde a Constituição de 1891, o Estado está separado da igreja, mas somente agora os formadores de opinião descobriram no "Aurélio" a palavra "laico". Lembram à saciedade e à sociedade que o Estado é laico.
A propósito das células-tronco, no uso e no direito de ter e de expressar a sua opinião, a igreja manifesta-se contrariamente à medida, em coerência com outras posições que ela adota há 2.000 anos, sendo como é a instituição mais antiga da história ocidental.
Ela não tem o poder de substituir o Estado, que é laico desde 1891. Nem por isso pode abdicar do dever de expressar a sua opinião sobre qualquer assunto. É um direito que outras religiões também usam. E não só as igrejas, mas associações disso e daquilo, as ONGs, as entidades que representam classes, arquitetos, advogados, médicos, bispos, pais-de-santo, jornalistas, filatelistas, homossexuais, columbófilos, escolas de samba - todos têm seus órgãos representativos, que emitem opiniões sobre questões que julgam de seu interesse.
Dentro de um Estado laico, há religiões e seitas que proíbem as transfusões de sangue, a participação em guerras, o uso de certas vacinas, de certos alimentos e de bebidas. Nenhuma delas quer ocupar a jurisdição do Estado, que todas elas reconhecem como laico.
Os cultos afro-brasileiros têm também suas regras pétreas e não são acusados de substituir o Estado. A igreja -repito- tem o direito constitucional e moral de se manifestar. E seus crentes dispõem de livre-arbítrio para acompanhá-la.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Transparência lá e cá - CARLOS HEITOR CONY

Parece filme de Woody Allen, mas não é. Tampouco tenho certeza se foi um sonho absurdo, como costumam ser os sonhos, mas que sempre servem para alguma coisa. No meu caso pessoal, já cheguei ao exagero de escrever dois romances a partir de sonhos que tenho mesmo sem estar dormindo. Nada demais que agora escreva uma crônica que me dá menos trabalho e, tal como os romances, nenhuma glória.
Não estou acompanhando com entusiasmo (e mesmo sem ele) a campanha eleitoral nos EUA. Leio as notícias e os comentários muito por cima, sem me interessar por nenhum candidato. Nem mesmo me edifico com a transparência, que, tal como no Brasil, passou a ser virtude indispensável dos governos e dos governantes. Todos agora se preocupam com a transparência, que antigamente era atributo exclusivo de seres incorpóreos, como os anjos e alguns extraterrestres.
Sonhei que Hillary Clinton, pré-candidata democrata, após comício em que ganhou o apoio de vários convencionais que nela votarão na devida hora, chegou em casa eufórica e comunicou o sucesso ao marido: "Bill, dei uma que vai derrubar o Obama definitivamente. Prometi que serei transparente como nunca ninguém foi neste país, nem mesmo você, que foi tão opaco naquele caso com a estagiária da Casa Branca. Para mostrar transparência, decidi me assumir tal como sou e declarei que não mais usaria peruca. Num gesto teatral que provocou uma ovação delirante, arranquei a minha peruca e a joguei para os convencionais".
O ex-presidente e marido estava tentando ler sem interesse um relatório sobre as conseqüências do aquecimento global, tema que não o alarmava pessoalmente. Sem tirar os olhos da papelada, estranhou:
"Mas querida, você nunca usou peruca!".

terça-feira, 1 de abril de 2008

Receita padrão de adultério - CARLOS HEITOR CONY

NÃO SUPORTOU mais e foi procurar o amigo escritor. Era amizade antiga, mas distante. De há muito o considerava um péssimo caráter, capaz de cometer qualquer miséria desde que tivesse lucro com uma mulher ou com um assunto que lhe desse inspiração. Aproveitava-lhe a sabedoria, mas evitava contagiar-se com a devassidão de sua vida abominável.
Ele desejava mudar o nome do prédio onde morava (Babilônia), aconselhara-se com o amigo, haveria uma reunião de condomínio e o escritor incentivou-o, que fosse formidando ao fazer a proposta.
- Formidando? Quê que é isso?
- Uma expressão clássica, Raul Pompéia usava muito em "O Ateneu", o professor Aristarco era formidando. Significa formidável, feroz, tonitruante.
- É isso aí! Serei formidando!
A reunião foi numa sexta-feira, à noite, nada teve de formidanda. No sábado, ele voltou ao amigo.
- Como é? Você foi formidando?
- Formidando uma ova! Foi um desastre!
- Mas por que diabo você quer mudar o nome do prédio?
Abriu-se. Pela primeira vez na vida, abria-se.
Tinha medo de ser traído. Sabia que as mulheres depois de certa idade sofriam crises, as tentações eram muitas. Ele achava que o nome "Babilônia" era um péssimo agouro. Mas reconhecia que não adiantava mudar o nome do prédio.
- É. Não resolve mesmo, admitiu o amigo.
- Você seria capaz de dar em cima da minha mulher?
A pergunta, à queima-roupa, desorientou o escritor, que apesar de cínico não estava preparado para ela.
- Não. Ela é muito magra.
- Era. Agora engordou um pouco.
Para ser fiel ao papel de cínico, o amigo novamente admitiu:
- Bem, se está no ponto, por que não?
- Você gosta de mulher gorda?
- Nada disso. Mas mulher magra foi uma impostura dos costureiros, dos modistas. São, em geral, pederastas. Odeiam a mulher. Querem os homens todos para eles e o melhor modo de eliminar a concorrência é obrigar a mulher a ficar ossuda, sem carnes. As idiotas fazem regime, ficam com as pernas que parecem palitos, a bunda vira uma tábua. Não é à toa que os homossexuais terminam levando vantagens. Agora, veja, as fêmeas bíblicas, a mulher das Escrituras, as mulheres de Renoir, de Rubens, as madonas, a "Fornarina" de Rafael...
- Bem, eu não entendo muito disso, mas acho que você tem razão.
- Uma porrada de razão! Os homens gostam e se casam com mulheres magras para a exibição, o jogo social. Na hora de rebolar na cama, preferem as gordinhas, as falsas magras...Todas as amantes dos meus amigos são assim...
- Eu não tenho amantes, Otávia me basta.
O amigo ia dizer qualquer coisa, freou-se a tempo.
- Você acha que sua mulher seria capaz de um adultério?
- Sei lá.
- Bom, em princípio todas as mulheres são capazes disso. Elas têm a matéria-prima do adultério: o sexo e o marido. Falta apenas o beneficiamento, que é o terceiro elemento, o amante, que não é difícil de encontrar. Mas fique sabendo, nenhuma mulher nasce adúltera, como os poetas que nascem poetas. Ela se faz, como os oradores. Ou melhor, o marido é que a faz adúltera.
- Você já cometeu adultério?
O amigo fingiu que não ouvira bem, mesmo assim tirou o corpo fora:
- Eu sou solteiro!
- Não é isso que quero dizer. Pergunto se você já cometeu adultério com alguma mulher casada?
- Que eu saiba, não. Não gosto de adultérios. Eles precisam de hotéis sórdidos, exigem códigos ridículos, praticam ritos abomináveis, dificilmente se comete adultério em paz de espírito.
- Isso é necessário? Essa paz de espírito?
- Tanta mulher no mundo, porque escolher uma que pode dar problema?
- O problema pode compensar.
Calaram-se por um tempo. O escritor ofereceu um uísque.
- Bem, por hoje chega. Aprendi bastante. Outro dia apareço.
- Você tem lido meus livros? -a pergunta foi também à queima-roupa.
- Não. Otávia acha-os indecentes e eu termino escondendo-os. Na última mudança, sumiram.
- Ainda bem. Qualquer que seja a solução do seu caso, mantenha-me informado. Você pode me dar bom assunto.

sábado, 29 de março de 2008

A carne assassina - CARLOS HEITOR CONY

Não, não me refiro àquele inimigo da alma: a Carne, que, junto com o Diabo e o Mundo, renunciamos no momento em que somos batizados. O padre pergunta ao recém-nascido se ele renuncia ao Diabo, ao Mundo e à Carne. Como o batizando ainda não fala, fala o padrinho, que renuncia ao Diabo, ao Mundo e à Carne em nome da criança. O padrinho funciona como uma espécie de laranja.
A carne a que me refiro é a carne mesmo, de boi, porco, cabrito, cordeiro ou de qualquer outro animal que tenha carne vermelha, como a nossa. Descobriram que a carne faz mal, é uma carne assassina. Tal como o fumo, que tira 15 minutos de vida a cada cigarro que se fuma. Dentro desse cálculo, eu já deveria ter morrido há uns 40 anos, nem sei como continuo vivo. Mais para lá do que para cá, mas vivo.
Quando ministro da Saúde, o Zé Serra impôs aquelas figurinhas nos maços de cigarro para desestimular os fumantes. Homens cadavéricos morrendo em CTIs, em cadeiras de roda após enfartes violentos e até mesmo impotentes sexuais. Valeu tudo, todas as mazelas físicas e espirituais para mostrar os malefícios do fumo.
Mais dia, menos dia, com a carne vermelha acontecerá o mesmo. Ela não será proibida, porque haverá lobby de produtores, frigoríficos, açougues, churrascarias, restaurantes etc. Mas, a cada bife que recebermos em nossa mesa, virá alguma forma de advertência, uma imagem espetada em cima da carne, estampando um caixão de defunto, um cemitério, uma caveira com os ossos cruzados, como na bandeira dos piratas.
Confesso que ficarei deveras impressionado. (Nunca usei o "deveras", mas usado está.) Nem por isso deixarei de apreciar um bife suntuoso, uma picanha na brasa. Sem prazer, a vida não vale a pena, mesmo que a alma não seja pequena.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Desgraça colorida - CARLOS HEITOR CONY

Faz tempo, dirigindo um carro em Montevidéu, cometi uma barbeiragem qualquer e me chamaram de "anormal". Nem dei bola. Não aprecio normas, não as tenho nem as cultivo. Mas outro dia, numa rua aqui do Rio, enfrentando um congestionamento, ultrapassei sem poder uma fila e me chamaram de "palhaço".
Não doeu como deveria, mas me senti como o criminoso que de repente é denunciado. Os palhaços sempre me impressionaram, não os achava engraçados, pelo contrário, tinha medo deles, de suas calvas, de suas vozes arranhadas. Em criança, quando me levavam ao circo, era um suplício, sonhava com eles, despertava coberto de suor. Eram desgraças coloridas, quanto mais coloridas mais desgraçadas.
Mais tarde, já adulto, encarnei num deles quando li o "King Lear", que convocou o bobo da corte para se distrair dos problemas que o afligiam, mas logo o mandou embora, dizendo: "És um bufão triste".
Taí. Todo bufão é mesmo triste, e os palhaços, tanto no picadeiro como fora dele, têm os olhos mais do que tristes por trás da máscara de alvaiade, a enorme boca pintada de vermelho disfarçando a vontade de chorar, chorar um pranto também enorme, que mistura todos os motivos que qualquer homem tem para chorar.
Em matéria de bufão, não fiquei no "Rei Lear". Um dos primeiros e raros sonetos que consegui decorar era uma chibatada não apenas em cima dos palhaços, mas de todos os profissionais de qualquer ofício. Autoria de um padre cearense que andava nas antologias de então. "Ontem viu-se-lhe em casa a esposa morta e a filhinha mais nova tão doente; hoje, o empresário vai bater-lhe à porta, que a platéia o reclama impaciente".
E o soneto termina: "Enquanto o lábio trêmulo gargalha, dentro do peito o coração soluça".

domingo, 2 de março de 2008

O diabo e a política - CARLOS HEITOR CONY

Naquela aldeia, todos roubavam de todos, matava-se, fornicava-se, jurava-se em falso, todos caluniavam todos. Horrorizado com os baixos costumes, o frade da aldeia resolveu dar o fora, pegou as sandálias, o bordão e se mandou.
Pouco adiante, já fora dos muros da aldeia, encontrou o Diabo encostado numa árvore, chapéu de palha cobrindo seus chifres. Tomava água de coco por um canudinho, na maior sombra e água fresca desde que se revoltara contra o Senhor, no início dos tempos.
O frade ficou admirado:
"O que está fazendo aí, nessa boa vida? Eu sempre pensei que você estaria lá na aldeia, infernizando a vida dos outros. Tudo de ruim que anda por lá era obra sua, assim eu pensava até agora. Vejo que estava enganado. Você não quer nada com o trabalho. Além de Diabo, você é um vagabundo!".
Sem pressa, acabando de tomar o seu coco pelo canudinho, o Diabo olhou para o frade com pena:
"Para quê? Eu trabalho desde o início dos tempos para desgraçar os homens e confesso que ando cansado. Mas não tinha outro jeito. Obrigação é obrigação, sempre procurei dar conta do recado. Mas agora, lá na aldeia, o pessoal resolveu se politizar. É partido pra lá, partido pra cá, todos têm razão, denúncias, inquéritos, invocam a ética, a transparência, é um pega-pra-capar generalizado. Eu estava sobrando, não precisavam mais de mim para serem o que são, viverem no inferno em que vivem".
Jogou o coco fora e botou um charuto na boca. Não precisou de fósforo, bastou dar uma baforada e de suas entranhas saiu o fogo que acendeu o charuto:
"Quando entra a política, eu dou o fora, não precisam mais de mim". (Este texto foi publicado na Folha Online anos atrás. Reproduzo-o pela sua atualidade).

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Um drama de Fidel - CARLOS HEITOR CONY

Dos males da mídia, não apenas a nacional, mas a internacional, a redundância é a mais constante. A renúncia de Fidel Castro, após 49 anos de poder, antecedeu a inevitável e imensa cobertura que ele teria por ocasião de sua morte, que, sinceramente, desejo estar bem longe ainda.
Já foi dito que toda a unanimidade é burra. No caso de Fidel, nunca houve unanimidade, a não ser em seus começos revolucionários, quando teve o apoio maciço de seu povo para derrubar uma ditadura. Quando da morte de Che Guevara, foram muitos os que começaram a contestar a sua linha de subserviência a Moscou. Para mostrar independência, ele expulsou alguns diplomatas soviéticos e mandou prender comunistas cubanos, entre os quais Aníbal Escalante, o mais destacado líder do partido.
A reação foi brutal. A URSS suspendeu o abastecimento de petróleo que fornecia a Cuba, as centrales que produziam açúcar ficaram sem combustível, o petroleiro diário que abastecia a ilha passou a ser quinzenal, depois mensal. Era a ruína da precária economia cubana, começou a faltar de tudo na ilha.
Fidel sentiu necessidade de pedir desculpas ao Kremlin. A oportunidade veio em 1968, com a crise da antiga Tchecoslováquia. Foi o primeiro chefe de Estado comunista a ir a Moscou levando seu apoio à intervenção das forças do Pacto de Varsóvia que esmagaram a decantada Primavera de Praga. A ilha voltou a ser abastecida com o petróleo soviético.
O episódio comporta contraditórias explicações. Jogada de mestre de um chefe de governo diante de um desafio truculento vindo do exterior? Ou oportunismo velhaco de um político que traía os fundamentos da luta a favor de um povo? Na ocasião, a quem ele poderia pedir ajuda? Aos Estados Unidos?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

CPI natimorta - CARLOS HEITOR CONY

O que se pode esperar de uma comissão que vai apurar mais de 11 mil casos de uso indevido dos cartões corporativos? A mídia deitará e rolará em cima do novo escândalo. Está treinada em investigar as irregularidades do poder, cumpre o seu papel com entusiasmo, acreditando que colabora para a formação de um Estado ideal e de uma sociedade perfeita.
É evidente que os gastos corporativos revelam uma frouxidão moral e um abuso funcional de tantas autoridades em diversos escalões. Tivemos CPIs bem mais importantes, como a do mensalão, que só chegará a resultados em 2009 ou 2011, quando alguns dos crimes estarão prescritos. Isso sem falar na CPI que não houve para apurar a compra dos votos que deram o segundo mandato a FHC.
Como já acentuei em crônica anterior, se houver mesmo uma CPI para os cartões corporativos, ela será uma natimorta. Dependerá de documentos, pareceres e processos do próprio governo. De nada adiantará o recibo do botequim que vendeu uma empada de camarão ao segurança de um ministro e foi paga com o cartão corporativo. Para explicar a compra da empada, o ministério em causa citará um cipoal de decretos e portarias que dão condição legal ao mata-fome de seu servidor.
Um cronista de outros tempos diria que esse exemplo é "mofino". Afinal, as despesas com os cartões não ficaram em botequins. Somam alguns milhares de reais, nem todas tiveram a nobre função de matar a fome de um segurança da nação.
Seis anos atrás, parei num posto de gasolina na estrada que vai de Paris a Lyon. Uma Mercedes suntuosa também se abastecia, estava a serviço da mulher de um ministro do nosso governo. Sabendo que eu era brasileiro, ela se ofereceu para pagar a minha despesa com o seu cartão corporativo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O amendoim e a fábula - CARLOS HEITOR CONY

VEIO DE longe para tentar a vida no Rio. Queria ser escritor. Até a idade de oito anos vendera amendoim torradinho.

Entre o amendoim torradinho e a glória, o caminho era duro, mas ele seria forte. O físico não ajudava: pequenino, magrinho, nervoso. Tipo ideal para extrema esquerda do Olaria.
Sabia escrever e escrevia bem. Não tinha cultura, mas ninguém precisa ter cultura para escrever. Cultura até atrapalha.

Amor também atrapalha. E começou a amar e a ficar atrapalhado. Quando levou o primeiro fora respeitável, deixou crescer a barba em sinal de protesto ou de dor. Protesto um tanto lírico, dor um tanto velhaca, mas a cara adquiriu aspectos sombrios, parecia efígie de selo belga.

Murmuram as línguas informadas que nunca esqueceu esse primeiro amor. Se não esqueceu, pelo menos não abriu as veias: enfrentou novamente a vida e o amor, e foi amando e escrevendo para os jornais. Mas, ao fim da noite, quando se olhava no espelho, ele sabia que amara e fora traído, sofrera e gozara apenas para esquecer a primeira.
Saía então para beber. Bebia e perdia o emprego. Mudou de jornal, em um ano percorreu todas as redações do Rio e todos os bairros onde houvesse mulher digna de seu amor e de sua dor. Ameaçava escrever um romance quando os amigos diziam que ele estava se perdendo.

Até que um dia correu a notícia: fugira com uma mulher casada para Brasília, num Volkswagen. A notícia tinha metade digna de crédito: a fuga com a mulher casada. A metade inverossímil era o Volkswagen -os tempos andavam magros, e ele não tinha dinheiro nem para o bonde.

Mas o carro podia ser da mulher, e aí a fuga faria sentido. Não fez sentido foi a semana seguinte. Voltaram os dois de Brasília, ele e ela, sem Volkswagen mesmo. O marido perdoou a esposa prevaricadora, e a esposa, livre da prevaricação, tomou fobia pela cara do ex-amante, e o ex-amante tomou pifões em diversos bares e escreveu cartas que os suplementos literários publicavam.

Recusou oferta de um emprego em Brasília. Volta e meia os governantes querem prestigiar a classe e convidam tudo quanto é intelectual para os gabinetes. Em uma dessas ondas, veio o convite e seguiu a recusa:

-Vim ser escritor no Rio, e não funcionário em Brasília!

Atitude e a frase eram dignas de figurar na Enciclopédia Britânica, e, por causa disso, pediu R$ 500 ao amigo: estava na negra. Precisava encher a cara, uma infiel de Ipanema. Dera-lhe sopa no teatro e bolo no dia seguinte.

-Como pode, hein?

-Mulher é assim mesmo.

-Mas elas mudam tanto!

-Isso já está em ópera.

Não foi beber com os R$ 500. Foi é enfrentar um macarrão com bastante queijo, matar a fome de dois ou três dias.

E, dois ou três dias depois, ameaçou suicídio. Uma mulata fatal, de olhos enormes, carnuda. Tomou enorme pifão e tentou a morte: pulou da janela.
Mas não morreu nem se feriu: dois meses atrás morava num oitavo andar, agora morava no chão -a altura da janela não deu nem para curar a bebedeira.

Agora sim, iria escrever um romance. Todo mundo acreditou no romance, inclusive ele.
Comprou resmas de papel, máquina portátil, fez um esboço que chegou a publicar. O livro passou a ser citado. Duas ou três passagens conhecidas de relato oral foram incorporadas definitivamente aos melhores momentos da ficção nacional.
Raspou e deixou crescer a barba inúmeras vezes, amou e foi traído, pulou janelas e empregos, foi envelhecendo e perdendo a pinta de menino prodígio, os olhos ficavam baços atrás das lentes cada vez mais grossas.

Pelas madrugadas da cidade, é agora um vulto que passa sempre às mesmas horas e nos mesmos lugares, procurando público e amor. Qualquer um dos dois serve: tanto o amigo que ouvirá mais um trecho do romance que ainda não escreveu como a moça que lhe despertará paixão, ciúmes, novas e sofridas epístolas.

Some pela rua escura. O passo é nervoso, ligeiro. Tem ainda a agilidade do vendedor de amendoim. E o cansaço do homem grande que o vai envolvendo em silêncio e tornando cada vez mais obstinada a vontade de ser feliz.

terça-feira, 26 de junho de 2007

"Onde está o presidente?" - CARLOS HEITOR CONY

Num desses telejornais, vi o desabafo de um cidadão que não obedeceu ao conselho da ministra do Turismo para relaxar. Tomou o microfone da jornalista e gritou: "Onde está o presidente? Há algum presidente neste país?".
A cena era patética e já conhecida de todos. Gente deitada no chão, pessoas doentes chorando, o diabo. Onde estava o presidente? A pergunta pode parecer exagerada (não a cólera), mas há razão para ela. A crise no setor aéreo pertence ao Executivo, cujo chefe maior está omisso, dando conselhos e invocando um trabalho que não aparece.
Lembro dois casos. JK tomou posse na Presidência e, dias depois, rompeu-se a barragem de Orós. Ele deslocou todo o governo para lá e só voltou ao Rio após tomar as medidas executivas para resolver o problema pessoalmente, embora não fosse engenheiro nem ainda tivesse tomado pé da chefia da nação.
Outro exemplo: Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara, teve um problema de rompimento na adutora do Guandu em construção. A cidade ficaria sem água. Lacerda pegou uma cadeira, sentou-se no local da obra e só saiu dali no dia seguinte, com o problema resolvido.
Tanto num como no outro caso, a presença física do presidente e do governador apressaram a solução do caso. Evidente que Lula não precisa bivacar no saguão dos aeroportos. Mas a presença dele nos segmentos em crise, tomando providências imediatas sem delegação a terceiros, daria um cenário novo ao apagão aéreo.
Passar a responsabilidade para a cadeia hierárquica do comando vem revelando inutilidade operacional e insensibilidade política. Dá a impressão que ele está fazendo tudo quando mantém os mesmos homens nos mesmos cargos e não toma a iniciativa que se espera de um chefe do Executivo.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Seria uma pena - CARLOS HEITOR CONY

Se dependesse de mim, Lula teria sofrido um impeachment no final de seu primeiro mandato, por conta dos escândalos do mensalão. Impossível que ele não soubesse e não tolerasse a corrupção que se instalou à sua volta, ceifando inclusive o seu auxiliar mais próximo e importante.
A vida seguiu seu curso, ele foi reeleito, não fez nada que prestasse até agora e lançou o PAC -que está abastecendo novos escândalos. Mesmo assim, sem dar a mão à palmatória (a vida segue em frente e muita água continuará movendo os moinhos de sempre), acredito que, em termos de imagem pública e pessoal, ele se saiu bem em dois lances recentes.
Em entrevista a um jornalista da BBC, em Londres, ele deu um show, não negou fogo em nenhuma das provocações que recebeu, defendeu a posição do Brasil em relação à Amazônia de forma brilhante, fazendo o jornalista gaguejar diante das razões que apresentou.
Nesta semana, foi surpreendido com o indiciamento de seu irmão mais velho pela Polícia Federal e com a prisão de amigos de longa data que estariam comprometidos com o sistema dos bingos. Dizem que sua primeira reação foi violenta, soltou os palavrões que o homem comum costuma soltar quando contrariado. Mas, em público, falando como presidente da República, botou as coisas no devido lugar.
Pessoalmente, garantiu que acredita na inocência de seu irmão, entre outros motivos, porque "ele não tem cabeça para fazer lobby". A inocência seria de ordem intelectual. Como presidente, ele não só elogiou e apoiou as ações da PF como a estimulou a continuar o seu trabalho, tentando acabar com as diversas fontes de corrupção.
Pode ser que, por baixo do pano, ele faça algum movimento para livrar a cara do irmão e dos amigos. Será uma pena.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

O pai-nosso e o vigário - CARLOS HEITOR CONY

Chega a ser monótono: em vésperas de Copa do Mundo, o Brasil tem 180 milhões de técnicos de futebol (o número exato varia de acordo com o aumento da população). Cada qual tem o seu time e a sua tática de jogo. A abundância de técnicos não prejudica, pelo contrário, tem dado certo: somos pentacampeões.
Seria exagero dizer, a propósito da visita de Bento 16, que somos 180 milhões de papas, cada qual com uma visão doutrinária e pragmática mais de acordo com a realidade do tempo e das bossas novas que se sucedem, modernizando gostos e comportamentos.
Nunca tentei ser técnico de futebol, aceito de má vontade aqueles que a CBF indica, torço moderadamente por eles, mas nunca tive a audácia de escalar um time ideal. O mesmo não acontece com o papado. Fui seminarista, e tinha uma tia carola que me via padre, bispo, cardeal e papa. Evidente que as minhas possibilidades eram remotíssimas, nem a padre cheguei, fiquei agnóstico aos 20 anos e passei a me preocupar com outras coisas mais ligadas ao diabo, ao mundo e à carne, que, pela voz dos meus padrinhos, eu jurara renunciar quando fui batizado, aos dois meses de idade.
De qualquer maneira, admiro todos aqueles que pretendem ensinar o pai-nosso ao vigário de plantão. Uns pelos outros, repetem os mesmíssimos conselhos, detentores que são do mapa da mina que resolve todos os problemas, não apenas do catolicismo, mas da humanidade em geral.
É lastimável que só haja um papa, ainda mais conservador, comprometido com uma doutrina de trevas, em confronto com o mundo moderno e suas conquistas. Se, por um absurdo da história e da minha biografia, eu chegasse a papa, contrataria um instituto de pesquisa para saber o que deveria pensar e ensinar.

domingo, 22 de abril de 2007

Machismo - Carlos Heitor Cony

O machismo saiu de moda. As mulheres não usam espartilhos, os homens não usam ceroulas. Entretanto o machismo produziu, ao longo dos séculos, um arsenal de argumentos que continuam dando caldo. Relendo o filósofo Schopenhauer, espantei-me com os trechos que havia sublinhado. Transcreverei alguns. Não os endosso. São conceitos de outra época. Aí estão eles:
"O simples aspecto da mulher revela que não é destinada nem aos grandes trabalhos intelectuais ou materiais. Conservam-se a vida toda uma espécie de intermediárias entre a criança e o homem. A natureza recusando-lhes a força, deu-lhes a astúcia para lhes proteger a fraqueza: de onde resultam a instintiva velhacaria e a invencível tendência à simulação do sexo feminino".
"O leão tem os dentes e as garras. O elefante e o javali, as presas; o polvo, a titã; a cobra, o veneno. A natureza deu à mulher para se defender apenas a dissimulação. Esta faculdade supre a força que o homem tira do vigor de seus músculos e de sua inteligência".
"Os homens entre si são naturalmente indiferentes. As mulheres são, por índole, inimigas. Isso provém da rivalidade que, no homem, só se destina aos da mesma profissão. Nas mulheres, todas elas são rivais umas das outras, pois todas têm a mesma profissão e buscam o mesmo fim".
Elas são até mais aptas do que os homens para aprender o lado técnico das artes, e mais constantes e dedicadas no aprendizado. Taí, em linhas gerais, o pensamento de Schopenhauer. Discordo dele: nem o homem nem a mulher foram feitos para produzir obras definitivas no campo das artes ou do consumo mercadológico. Somos todos da mesma massa. De minha parte, folgo que haja mulheres, diferentes de mim na cabeça, no tronco e, principalmente, nos membros.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Tropa de choque - CARLOS HEITOR CONY

Ninguém escondeu, nem mesmo o próprio presidente da República: o novo ministério, que é o velho ministério recauchutado, não é uma equipe executiva para levar o governo a algum desempenho específico. Evidente que os ministros despacharão, assinarão processos, farão declarações disso e daquilo, mas o critério que os escolheu, além de ser político (o que é natural), é sobretudo tático.
Com a experiência do mandato anterior, Lula tentou garantir uma base aliada no Congresso, não só para votar projetos do governo mas para impedir a criação de CPIs. Cada ministro representa, em tese, determinado número de votos no plenário das duas Casas do Legislativo.
Não é nada, ele passou raspando pelo impeachment com as comissões anteriores -foi salvo porque a oposição parece que se contentou com a cassação de José Dirceu e com o terremoto que sacudiu o PT, degolando a cabeça de notáveis parceiros de Lula.
Não se sabe o que vem pela frente, e o governo precisa da maioria estável para não repetir o vexame do mensalão -dinheiro grosso que corria a cada votação de interesse do Planalto.
Além de medida preventiva, ao garantir a maioria, Lula terá espaço para articular a mudança na Constituição que lhe garanta um terceiro mandato. Tem tempo para isso e trunfos. Mudará os ministros que não lhe tragam votos concretos na hora adequada.
Em princípio, não há na nova equipe um candidato a superministro. Os dois anteriores (Dirceu e Palocci) foram ceifados, serviram de escudo para proteger a figura central do governo. Mesmo assim, houve momentos em que a coisa parecia balançar. Lula escapou porque, entre outras coisas, além de garantir que não sabia de nada, não se empenhou em defender os dois cabeças de seu governo anterior.