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domingo, 5 de agosto de 2007

Considere este post - CECILIA GIANNETTI

APESAR DE o brasileiro médio só ler 1,8 livro ao ano e de, em 2006, termos sido chamados pela revista britânica "The Economist" -finalmente, o reconhecimento internacional- de "nação de não-leitores", as festas literárias multiplicam-se com sucesso pelo país.
No rastro da Flip, que acontece em julho, em Paraty, surgiram eventos como o Off-Flip (também em Paraty, no mesmo período de julho), Flap! (entre 29 de junho e 1º de julho, em São Paulo), Flop (Ouro Preto, Minas Gerais, novembro) e Fliporto (Porto de Galinhas, Pernambuco, setembro), entre outros.
Se eu pudesse iria a todos, é sempre divertido -os bastidores costumam ser uma versão mais aloprada da WordFest de "Garotos Incríveis", do Michael Chabon.
Mas fugiria pra tomar ar fresco (também conhecido como chope) durante qualquer debate em torno do tema literatura on-line, literatura de internet ou literatura de blog. Apesar de tal coisa não existir, o assunto é recorrente.
Existem blogs literários; existem sites jornalísticos dedicados à literatura; listas de discussão e fóruns on-line em que os usuários trocam opiniões sobre seus textos de ficção em críticas informais.
Há ainda iniciativas como a da editora inglesa Penguin Books, que lançou o blog A Million Penguins, no qual cada usuário cadastrado podia escrever um capítulo ou pedaço dele, e também reescrever partes desenvolvidas por outros usuários, resultando numa história totalmente criada pelos internautas.
Mas não existe uma "linguagem de literatura de internet". Pode existir, por exemplo, uma história que se desenvolve por meio de trocas de e-mails.
Mas não passa de um romance epistolar ambientado no século 21. Ficções curtas em posts podem ser publicadas em papel, permanecendo como ficções curtas, sem qualquer prejuízo em relação ao original. E continuará não existindo a tal da literatura de blog.
Por enquanto, o que existe é a internet como caminho para o escritor chegar ao leitor, às vezes antes que possa publicar em papel.
Há dez anos, um autor jovem, desconhecido, não tinha meia dúzia de leitores fora de seu círculo de amizades.
Hoje, se o que produz on-line é interessante, em pouco tempo seu blog ganha pencas de leitores. Ou ao menos mais do que meia dúzia deles.
E tudo isso antes que tenha um livro lançado. Por outro lado, a web não encurta o caminho até a publicação -a maioria dos editores não tem o hábito de fuçar blogs literários em busca de autores novos.
Não existe a literatura on-line como gênero.
Não existirá até que surjam histórias na web impossíveis de serem contadas no suporte livro -sob o risco de, impressas, virarem outra coisa que não é absolutamente o que se propunham ser na internet.
Aí, caso se reconheça e popularize essa ocorrência extraordinária de literatura intransponível para o papel, valerá debater o surgimento de um novo nicho.

domingo, 15 de julho de 2007

Na Flip, todos os autores amam amar - NOEMI JAFFE

Nietzsche diz que os amantes amam mais o amor do que a pessoa amada. Coetzee, Nadine Gordimer, Amós Oz, Alan Pauls, Will Self e, eu arriscaria, todos os autores presentes na Flip, colonizam, descolonizam, ironizam, se perdem para dificilmente se achar em labirintos de parênteses, impossibilidades, dores e encantamentos para voltarem para o assunto único: o amor.

Três dias de Flip, umas dez mesas e uma conclusão entre óbvia e misteriosa: todos eles amam amar. Mas o homenageado da festa já dizia: "Só os profetas enxergam o óbvio".
Alan Pauls me diz que "todo relacionamento já contém em si mesmo a futura separação" e que ela seria, na verdade, a "obra magistral de um relacionamento". E que "é preciso que haja zonas de sombra" para que a transparência que, segundo ele, é o monstro do amor, não o acabe assassinando. Nadine Gordimer diz "que os amantes enxergam com o terceiro olho coisas que só eles vêem na órbita do olho do amado". Will Self, o muso cínico da Flip, diz que "o homem amado, com quem a mulher divide as colheres da gaveta, é sempre ele o perverso, aquele encarregado de destruí-la".

Fernando Pessoa (que não está na Flip) já sabia que todas as cartas de amor são ridículas. Alan Pauls, categórico, diz que "o amante é aquele que não tem vergonha de ser ridículo". E Nelson Rodrigues, gênio trágico, já sabia que "só os imbecis têm medo do ridículo". Amar, enfim, é absurdo. É entregar-se abertamente à dor e à deselegância. Mas quem sabe também seja o elixir que faltava para a maldição contemporânea da atitude "blasé" que, em nome de não cair no ridículo, é capaz até de não amar.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Bichos - CECILIA GIANNETTI

"Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós."
Graciliano Ramos

ERA ASSIM que Graciliano se referia à raça dos escritores, incluindo-se na definição em carta à irmã Heloísa, escrita em 1935. Na Festa Literária Internacional de Parati, que acabou domingo último, bicharada escrevedora concentrou-se por quatro dias, lendo, comendo, bebendo e discutindo pelas ruas de pedras bulbosas, botecos repletos, calor de lascar de dia e, à noite, o frio combatido com casacões e cachaça produzida nos alambiques da cidade.
No meio da festa, ando até a rodoviária para descansar um pouco da tal da vida literária -a lata de sardinhas do mercado editorial em que se transforma o centro histórico da cidade durante a Flip. Gente de letras. O sol não dá sinal de que vai parar de tostá-las, suas cabeças premiadas, Nobels e Astúrias e coisa e tal.
No terminal de ônibus, uma velha agarrada a uma sacola de plástico olha fixamente para uma TV, hipnotizada pelos orientais lutando na tela. Crianças com uniforme de escola pública esperam ônibus para cidades vizinhas, precisam viajar para aprender o be-a-básico. Roem algum tipo de pão seco e sem recheio, fazendo barulho e mostrando como o mastigam, dentes podres tão cedo.
Um cachorro preto ronda as crianças, trota com a altivez que os cavalos puxadores de carroça da cidade não têm, os que levam tocos de árvore aos restaurantes de forno a lenha ou vão montados. Não late.
Tremendo beco essa vida às vezes, quando se é bicho. O escritor norte-americano Jim Dodge, convidado da festa, passou os quatro dias em coletivas e sessões de autógrafos, em companhia de uma pata de gesso que fizeram segui-lo, a título de marketing por seu cult-livro "Fup" -que trata, justamente, de uma pata gorda. Inicialmente, Dodge ficou constrangido com a coisa; depois já brincava com o bico da Fup fake.
Na praça, patos passaram a semana num cercadinho cheio de bonecos representativos do folclore literário. Escritores chegaram a tramar, em delírio noturno, uma ação ecoterrorista para libertar os patos. Mas surgiu o problema: libertar os bichos e soltar onde? Os patos continuaram fazendo parte da decoração da festa.
Caminho de volta à cidade puxando a bolsa que levo nas costas com a dignidade dos cavalos tronchos, enxergando tanto quanto eles: não se pode despregar os olhos do chão em Paraty ou as pedras te passam a perna. Cada passo é uma surpresa, pedras largas sucedem-se às menores, alto e baixo relevo, escorregadio. Limo, lama, essas coisas que se apegam à gente quando ninguém mais se apegaria. Entro na rua Dona Geralda e agora esbugalho os olhos, atenta aos conhecidos. Passam aos trancos e barrancos pelas calçadas, acenando com livros nas mãos.