Já a oposição está "fraca de projetos", mas tem candidatos fortes ou aparentemente fortes. O lógico é que o governismo busque tapar o seu vazio com a sua grande força (Lula).
Antes de continuar, é bom dizer que Eduardo Campos não é favorável nem ao terceiro mandado nem, muito menos, ao relançamento da tese neste momento. Portanto, não está teorizando em defesa de uma determinada posição pessoal.
E jura que não tem interesse em que caia a tese da re-reeleição, para que possa ser candidato. Pela sua idade (42), acho que não é mesmo candidato, a não ser à própria reeleição. Política tem fila, embora nem sempre respeitada.
O governador conta também que, nas conversas com Lula em que apareceu o tema do terceiro mandato, o presidente foi sempre firme em rejeitar a hipótese, o que não é usual nele. O hábito do presidente, desde, aliás, os tempos de liderança sindical, é o de ouvir, sentir o interlocutor, ver para onde sopra o vento na conversa, e só depois fechar questão.
Campos conta também que, ontem, no carro que o levava do aeroporto de Roterdã ao hotel em que se hospeda em Haia, o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, fez questão de telefonar para o Brasil para conferir se era verdade que algum on-line havia informado que, na reunião com o pessoal do PDT, Lula havia dito que romperia com o PT se o PT levasse avante a idéia do terceiro mandato. Era.
Tudo somado, volta-se, pois, à tese de oposição fraca/candidatos fortes x situação forte/sem candidato ainda.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Um cenário 2008 para 2010 - CLÓVIS ROSSI
sábado, 5 de abril de 2008
Ronaldo, Messi e as máquinas - CLÓVIS ROSSI
Por mais que suspeite que a pregação de uma relativa frugalidade está fadada à derrota, ao menos no tempo de vida que me resta, ela ganha atualidade ante duas cenas muito recentes. A primeira, a de Ronaldo caído na grama e chorando (de novo) por mais uma contusão séria, durante jogo do Milan, faz apenas três semanas. A segunda, a de um menino, Lionel Messi, jogador do Barcelona, chorando (de novo) pela ruptura do bíceps femural da coxa esquerda, no jogo em que ganhamos do Celtic (1 a 0), na noite de anteontem.
O que tem o primeiro parágrafo a ver com o segundo? Do meu ponto de vista, tudo: situações como a de Ronaldo, 31 anos, e a de Messi, 20, ocorrem porque está havendo um consumo descontrolado também de seres humanos.
O jornal "El País" diz que a nova contusão do craque do Barça "reabre o debate sobre se a fragilidade muscular de Messi tem algo a ver com o tratamento hormonal a que foi submetido em sua adolescência para corrigir problemas de crescimento" (Messi passou de adolescente a adulto já no Barça, ao qual chegou aos 13 anos).
Não soa familiar? Não é o mesmo debate que se deu sobre a nova contusão de Ronaldo?
O fato é que o esporte de competição tornou-se parte da formidável engrenagem do capitalismo. Por isso, exigem-se máquinas de produzir (no caso, futebol). Nada contra o capitalismo. Mas ainda prefiro seres humanos a máquinas.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
A hora do caudilho - CLÓVIS ROSSI
Anteontem, sem mais nem menos, o vice-presidente José Alencar disse que, "se perguntarem aos brasileiros, o que os brasileiros desejam é que o Lula fique mais tempo no poder". Parece ser verdade, a julgar pelas pesquisas.
Somando-se o primeiro parágrafo ao segundo, ter-se-ia o mais clássico caso de juntar a fome com a vontade de comer. Quer dizer, então, que vem aí a re-reeleição de Lula? Não necessariamente. Até prova em contrário, sou obrigado a tomar pelo valor de face as reiteradas afirmações de Lula de que um terceiro mandato consecutivo seria "brincar com a democracia".
A minha interpretação para a soma dos dois parágrafos iniciais é esta: Lula vai fazer o diabo para tentar eleger seu sucessor. Óbvio? Nem tanto, a julgar pelas especulações, inclusive recentes, de que ele faria corpo mole em 2010 para ter o caminho aplainado para voltar em 2014.
Fazer o diabo significa desconhecer limites para lealdades e nomes. O presidente já demonstrou que não morre abraçado nem com os mais próximos. Dispensou rapidinho, por exemplo, José Dirceu e Antonio Palocci.
Dispensará, portanto, manda a lógica, qualquer candidato/a a candidato/a que não decolar. Já demonstrou também que abraça ex-adversários com a mesma facilidade com que os atacava rudemente antes. A lista é imensa.
Creio que a única condição para um candidato ter em Lula um grande eleitor em 2010 será a capacidade de não ameaçar o caudilhismo que Lula exerce desde o sindicato de São Bernardo e que se firmou muito na Presidência.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Leviandade é crime - CLÓVIS ROSSI
No fundo, estamos diante de uma gênese idêntica ao escândalo da Escola Base, no qual a mídia foi crucificada, com toda a justiça. Mas faltou mais alguém na cruz: o delegado responsável pela investigação do caso.
Vamos rebobinar um pouco a fita e analisar as circunstâncias em que se deu a desumana crucificação dos responsáveis pela escola, apontados como abusadores de crianças.
Quem detinha, com exclusividade, todas as informações? O delegado.
Ninguém mais. Quem repassou as informações aos jornalistas, coletivamente? O delegado. Aos jornalistas, restava um de dois caminhos: duvidar ou acreditar (claro que me refiro aos jornalistas de boa-fé; os que têm índole sensacionalista não precisam acreditar ou duvidar de nada para dar vazão à índole).
Mais: se duvidassem e decidissem não publicar, seria preciso que todos tivessem idêntico comportamento. Um só que publicasse já estaria provocando o dano à reputação dos donos da escola.
Agora é um pouco a mesma coisa.
O delegado deu entrevista que a Rede Globo, pelo menos, pôs no ar (não vi outros telejornais, mas suspeito que todos o tenham feito).
Adiantaria alguma coisa se a Folha, digamos, não publicasse a acusação ao pai da menina?
Salvaria a face do jornal, mas não salvaria o principal, que é a reputação do pai.
Nem importa, no caso, se vier a se comprovar que o pai é mesmo culpado. Não cabe ao delegado, ao menos nesta fase da investigação, dizer quem é ou não suspeito.
Se o pai for de fato culpado, será punido ao fim da investigação. Se for inocente, já está punido.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Valentões de palácio - CLÓVIS ROSSI
Se respondeu sim a ambas as perguntas, parabéns. Você está pronto para ser presidente de algum país da América Latina. Foi esse, afinal, o comportamento dos presidentes Álvaro Uribe (Colômbia), Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador), na cúpula do Grupo do Rio, recém-encerrada na República Dominicana.
Depois os políticos se queixam do crescente distanciamento entre representantes e representados, da crescente indiferença (ou repúdio ou nojo) dos mortais comuns ao jogo político.
Sempre haverá algum debilóide com aquela visão binária (e indigente) para retrucar: ah, então você queria que eles fossem à guerra? (Ou aos tapas, porque meter-se na selva mesmo e lá trocar tiros, nenhum deles nem passa perto).
O problema não é ir ou não à guerra ou aos tapas, mas ser sério ou não. É, no caso, não ter armado o formidável imbróglio que armaram. Se fossem sérios não precisariam depois praticar essas cenas explícitas de hipocrisia.
A América Latina está saindo da era do realismo mágico, tão bem narrado por Gabriel García Márquez, para cair na farsa. Ficam esses valentões de palácio a berrar contra o imperialismo, mas:
1) Correa não mudou a dolarização introduzida por um de seus antecessores, o que é ceder parte da soberania equatoriana ao império;
2) Chávez continua vendendo a maior fatia de seu petróleo para os Estados Unidos, segundo ele responsável por todos os males do planeta ou além dele. Cães que ladram para a Lua são até engraçadinhos. Governantes que o fazem são ridículos.
segunda-feira, 3 de março de 2008
O príncipe e Palocci - CLÓVIS ROSSI
O "Daily Telegraph" festejou a presença do príncipe assim: "Excluir o príncipe de operações de combate -como o Ministério da Defesa originalmente o fez, por causa do medo de que poria em particular perigo a sua unidade- sugeriria que há uma regra para os membros da família real e outra para o resto das Forças Armadas".
É um exagero. É óbvio que a família real britânica goza de "regras" (leia-se privilégios) que não estão ao alcance dos mortais comuns.
Mas o fato de Harry não ter sido poupado de uma estada nesse paraíso turístico chamado Afeganistão, comparado às "regras" não escritas que valem para a aristocracia brasileira não coroada nem titulada, é todo um compêndio sobre hábitos e costumes nada republicanos no pobre país tropical.
Por aqui, predomina o comportamento monárquico absolutista de quem detém fatias de poder, de que dá prova o caso Antonio Palocci.
Posso estar sendo ingênuo, mas continuo achando que Palocci não é um delinqüente. Cometeu, sim, uma delinqüência, na violação do sigilo do caseiro Francenildo dos Santos Costa.
Mas parece razoável atribuir a delinqüência não a um DNA delinqüencial mas à certeza de que a uma autoridade tudo está permitido, ainda mais contra os de baixo. Ou, para citar o "Telegraph", tinha a certeza de que "há uma regra para os membros da família real [no caso, o ministério da República] e outra para o resto".
É a República imperial.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
O "pop star" se aposenta - Clóvis Rossi
terça-feira, 3 de abril de 2007
Um país-piada - CLÓVIS ROSSI
A Gol emitia ontem instruções aos passageiros para que fizessem qualquer coisa, menos ir aos aeroportos, porque, no país-piada, aviões não decolam de aeroportos, ficam estacionados.
No mesmo dia em que a Gol fazia tão insólito apelo, a Varig, recém-adquirida pela mesmíssima Gol, soltava uma promoção que também é piada. Título: "Todo mundo vai voar". Oferece 90% de desconto para todos os destinos domésticos operados pela companhia, mas só neste fim de semana.
É exatamente o fim de semana em que ninguém deve ir aos aeroportos, segundo recomendação da nova dona da empresa que diz que "todo mundo vai voar".
Vai não.Tanto que outro dos atores do circense drama aéreo tupiniquim dizia ontem: "Uma paralisação longa como essa destrói a malha aérea do país. Estamos, praticamente, começando do zero neste sábado", lamentava José Carlos Pereira, presidente da Infraero, referindo-se ao "motim" dos controladores de tráfego aéreo.
"Motim" cujo encerramento foi negociado não por gente do setor, como o ministro da Defesa ou mesmo o presidente em exercício, José Alencar, que já foi ministro da Defesa, mas pelo ministro do Planejamento, que não tem por que entender alguma coisa do assunto.
Mas, no país-piada, é até melhor que seja o ministro Paulo Bernardo a negociar. Afinal, seu chefe, Lula, dizia em dezembro: "Acho que acabou a crise. A situação parece já ter se normalizado".
É outra piada, porque, três meses depois, a "normalidade" antevista por Lula era tamanha que a Gol mandava fugir do aeroporto.