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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O que faz bem pra saúde? - Luis Fernando Veríssimo

Cada semana, uma novidade.
A última foi que pizza previne câncer do esôfago.
Acho a maior graça.
Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas peraí, não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz eu me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois eu rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas, me incham o cérebro, volto cheio de idéias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais os médicos deveriam proibir - como doem!
Essa história de que sexo faz bem pra pele acho que é conversa, mas mal tenho certeza de que não faz, então, pode-se abusar.
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde.
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda.
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou muzzarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, UAU!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca.
Beijar é melhor do que fumar.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Tomo pouca água, bebo mais que um cálice de vinho por dia, faz dois meses que não piso na academia, mas tenho dormido bem, trabalhado bastante, encontrado meus amigos, ido ao cinema e confiado que tudo isso pode me levar a uma idade avançada.
Sonhar é melhor do que nada.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Estragos e soluções - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Não se sabe qual é a, digamos, inclinação política do pênis. Ele é anatomicamente de centro, como todos os políticos na Itália, que se identificam como de “centrosinistra” ou de “centrodestra”, nunca de sinistra ou de destra. O pênis é centrão assumido, mas de que tendência ninguém sabe. Ele ora pende para um lado, ora para outro. Além de ser obviamente um falocrata, que se pudesse falar definiria sua posição como “sou mais eu”, sua ideologia é desconhecida. Raramente é a do seu portador, em relação ao qual mantém uma evidente independência de pensamento e ação. Há esquerdistas com pênis fascistas, conservadores com pênis sempre atrás de novas experiências sociais, liberais com pênis decididamente intervencionistas. O pênis é, por assim dizer, um livre atirador. Pênis não tem dono. Ou, dito de outra maneira, não costuma levar em consideração a conveniência dos seus donos. E como a comunicação entre o homem e o seu pênis é precária, o pênis não ouve apelos à razão e não adianta pedir para ele ter uma consciência histórica, o resultado é o estrago que vem causando a carreiras e reputações através dos tempos. Sem querer nem saber.
Veja-se o caso recente do Strauss-Kahn e do seu pênis predador. Deve ter havido uma tentativa de diálogo entre Strauss-Kahn e seu pênis antes do ataque à camareira. Não é impossível que o ex-provável candidato a presidente do seu país tenha até invocado o futuro da Europa e do mundo para tentar deter o pênis. “Arretez pour la France!”. O pênis não teria dado ouvidos. Espera um pouquinho, esqueça esta frase. O pênis não teria ligado. E fora adiante, sem nenhum prurido patriótico. E SK está politicamente liquidado. Mais uma vítima do próprio pênis.
O que fazer para que coisas assim não se repitam? A primeira solução é radical: a castração como condição para o serviço público masculino e carreiras políticas. Para o pênis aprender. A segunda solução seria a gradual substituição de homens por mulheres no poder, em todo o mundo. Uma solução que já está em curso. Os homens manteriam seu pênis mas sem a possibilidade de causar mais estragos. E pronto.

terça-feira, 3 de junho de 2008

O último engarrafamento - Luis Fernando Verissimo

A boa notícia é que nunca se viram tantos carros nas ruas. A má notícia é que nunca se viram tantos carros nas ruas.

Carros sendo produzidos e comprados como nunca significam fábricas e fornecedores funcionando e empregando mais, mais gente com mais dinheiro ou crédito no mercado, uma classe média em expansão, uma economia em crescimento.

Carros sendo produzidos e comprados como nunca significam engarrafamentos inéditos e acidentes de trânsito em níveis de massacre, sem falar no aumento da poluição do ar que respiramos e no agravamento generalizado das neuroses.

É bom que muitas pessoas que não tinham condições de comprar seu carro agora tenham, é ruim que em todas as grandes cidades brasileiras hoje exista uma grande nostalgia pelas chamadas horas do "rush", ou os horários de pique no trânsito, de antigamente, pois agora toda hora é hora do "rush".

O que há é que, na surrada analogia de uma Bélgica dentro de uma Índia para descrever o Brasil, a Bélgica cresceu e os belgas e neobelgas têm mais carros, mas continuam obrigados a circular nas ruas e estradas da Índia.

Quanto mais cresce a Bélgica mais aparecem as precariedades da Índia. A publicidade dos carros sendo lançados prefere ignorar esta realidade e anunciar máquinas flamantes feitas para zunir por ruas e estradas de um país que não apenas não é a Índia como não é nenhuma Bélgica reconhecível, mas uma terra fantástica onde o trânsito sempre flui e os carros voam.

Uma ironia que se repete diariamente: o cara chega em casa depois de algumas horas preso num engarrafamento de qualquer grande cidade brasileira, liga a televisão e, entre notícias de terríveis acidentes com morte em estradas inadequadas por excesso de velocidade, só vê propagandas de carros vendendo a grande aventura da velocidade. E da potência sem impedimentos, muito menos de carros na frente e dos lados.

Como fica cada vez mais improvável que conheceremos essa terra de sonho, resta esperar que a indústria automobilística se prepare para o engarrafamento final que vem aí, quando o trânsito se tornará, literalmente, impossível.

Esqueçam velocidade e potência. Interiores com beliches, quitinetes e mesas para carteado, para passar o tempo. Rojões de sinalização, para pedir o resgate por helicóptero. Sei lá.

Nota familiar. Minha neta Lucinda nasceu no dia de aniversário do Internacional, 4 de abril. Não foi nada planejado, apenas uma emoção a mais, como abono. Mãe e filha passam bem. O avô se recupera.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Os pés do Dr. Ebbesmeyer - Luis Fernado Veríssimo

Não sei se você leu. A polícia de Vancouver, no Canadá, está investigando um mistério: o aparecimento de três pés humanos em praias de ilhas da região, num curto espaço de tempo. Pés direitos. E os três vestindo tênis. Não foi revelada a marca dos tênis, talvez para não alimentar a hipótese de se tratar do lançamento de alguma campanha publicitária macabra (“Você se decompõe, seu tênis não”, ou “Não caia na água sem eles”).

São muitas as especulações sobre a origem dos pés. Seriam de vítimas de afogamento ou acidentes de barco ou avião. Só os pés teriam sobrado depois que a água e os peixes acabaram com o resto. Ou seriam vítimas de algum matador e desmembrador em série. É possível que já estejam procurando fetichistas conhecidos com serra elétrica em casa. Não sei.

O que mais me intrigou na notícia foi o depoimento de um professor de Oceanografia da Universidade de Washington chamado Curtis Ebbesmeyer, descrito como um especialista em objetos flutuantes. O Dr. Ebbesmeyer não tinha opinião sobre de onde saíram os três pés mas tinha uma explicação para o fato de serem só pés direitos. Pelo formato dos tênis, os de pé direito flutuam naturalmente para um lado, os de pé esquerdo para o outro. Assim, não é improvável que apareçam pés esquerdos correspondentes aos pés já descobertos, mas em praias opostas, apesar de terem a mesma origem. Como autoridade em objetos flutuantes, o Dr. Ebbesmeyer tem a teoria pronta para sustentar sua tese.

Não sei que cara tem o professor, ou que ator o interpretaria quando fizessem o filme, mas posso imaginar as gozações que ele sofria no meio acadêmico por causa da sua especialização e das suas teorias. Aquela sua idéia de que um hipotético par de tênis posto numa superfície de água se separará, e flutuará um para um lado e outro para o outro de acordo com o seu formato, devia valer algumas piadas condescendentes para o velho Curtis, que nunca antes na sua carreira fora consultado sobre sua obsessão, as idiossincrasias dos objetos flutuantes. Até surgir o mistério dos pés direitos para consagrá-lo.

Ou então o próprio Dr. Ebbesmeyer teria, um dia, decidido mostrar aos incrédulos que o atormentavam que sua teoria não era risível, que ele não era

o louco que imaginavam. E providenciara os pés para o seu experimento.

Eu, se fosse a polícia canadense, veria se o Dr. Ebbesmeyer não tem uma serra elétrica.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

River! Boca! - Luis Fernado Veríssimo

Foi um mal-entendido. Alguém deveria ir nos buscar no aeroporto de Miami e não apareceu. Ficamos mais de duas horas esperando num saguão vazio, que enchia a intervalos com a chegada de outros vôos e logo esvaziava de novo. E então nossa única companhia eram dois funcionários do aeroporto, dois faxineiros negros que vez por outra apareciam em extremidades opostas do saguão, a caminho de outro lugar. Quando dava a casualidade de os dois aparecerem ao mesmo tempo, um gritava para o outro:
- River!
E o outro respondia, lá do outro lado:
- Boca!
Aquilo se repetiu não sei quantas vezes, enquanto esperávamos no saguão. Era só se enxergarem e um gritava:
- River!
E o outro:
- Boca!
Os dois eram corpulentos. Idades indefinidas. Poderiam ser gêmeos. Argentinos, claro. Não dava para imaginar dois americanos, ou latino-americanos de outra parte, evocando o River Plate e o Boca Juniors daquele jeito. Portenhos, por certo, embora seus físicos não fossem típicos. E a troca de gritos, aparentemente, repetia-se o tempo todo. O dia todo, todos os dias.
- River!
- Boca!
Era só se enxergarem.
Tinha começado como brincadeira, imaginei. Talvez tivessem chegado juntos aos Estados Unidos. Talvez fossem parentes, cunhados ou vizinhos. Só o que os separava era que um torcia pelo River e o outro pelo Boca. Cultivar aquela diferença era uma maneira de continuar em Buenos Aires. Era provável que nunca mais tivessem visto seus times jogar, mas ainda proclamavam sua paixão antiga. Nem que fosse só um para o outro, através de um saguão vazio.
- River!
- Boca!
Não era mais uma troca de provocações bem humoradas. Não era mais uma brincadeira. O tom ficara lamentoso. Os dois dependiam daquela rotina invariável para certificarem-se de que estavam ali, que continuavam existindo, e argentinos, mesmo longe de casa. E continuavam River e Boca. Uma ladainha contra o esquecimento, pensei. Uma canção do exílio para duas vozes tristes. Ou isto é literatura e os dois antípodas só combatiam o tédio.
Os dois devem continuar lá, fazendo a mesma coisa. O dia todo, todos os dias.
- River!
- Boca!

Babaus - Luis Fernando Verissimo

E agora essa. Li que duas pessoas recorreram à Justiça para impedir que o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear ponha em funcionamento o gigantesco acelerador de partículas que está construindo há 14 anos perto de Genebra, alegando que um dos resultados da colisão de prótons em escala inédita que acontecerá dentro do acelerador pode ser a criação de um buraco negro que engoliria a Terra - e talvez o Universo.

A inauguração do acelerador está marcada para este verão europeu. Por via das dúvidas, enquanto não se resolver a questão, não faça planos para depois de julho.

A colisão dos prótons dentro do superacelerador recriará energias e condições que ocorreram pela primeira (e última) vez na fração de segundo depois do Big Bang que deu origem a, literalmente, tudo. Pesquisadores estudarão os efeitos destes choques atrás de novas pistas sobre a natureza da massa e das forças que formam o Universo.

Calcula-se que quase 90% da matéria do Universo é chamada pelos cientistas de "matéria negra" para não precisarem chamá-la de "mistério", ou de "seja lá o que for". Com o novo acelerador se estaria avançando alguns passos importantes nessa escuridão.

Mas como as partículas subatômicas são notoriamente imprevisíveis, o resultado de mais este exemplo da bisbilhotice humana poderia ser uma grande surpresa, a surpresa final. Em vez de um Big Bang, teríamos um Big Slurp, que nos chuparia - você, eu e todas as galáxias - para o nada, ou seja lá o que exista do outro lado do buraco.

Quase todos os cientistas ouvidos sobre a questão dizem que não há perigo. Os buracos negros, se aparecerem, serão pequenos (engolindo, presumivelmente, só a Suíça).

O alarmismo atual é equiparado ao que acompanhou a construção da bomba atômica em Los Alamos, quando se especulava que uma única explosão nuclear poderia incendiar toda a atmosfera terrestre.

E os alarmistas de hoje não parecem merecer muito crédito. Um é espanhol, o outro mora no Havaí, de onde partiu a ação judicial, e nenhum dos dois é físico praticante.

Mas o que assusta é que alguns cientistas, inclusive um tal Mangano ligado ao CEPN, não acham a hipótese tão fantástica assim, e o próprio CEPN montou um grupo de avaliação de segurança para rever o projeto antes de ligar o acelerador.

Quer dizer, não quero estragar o dia de ninguém, mas nosso velho Universo pode estar dando suas últimas voltas.

Haverá tempo para uma última especulação, antes de sermos chupados. Talvez o significado de um dos fenômenos mais misteriosos do Universo, o de astros longínquos que desaparecem para dentro de si mesmos, seja que em algum lugar do cosmo os cientistas locais foram curiosos demais, e deram um passo que não era para dar.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Voltar - Luis Fernado Veríssimo

Segundo o folclore, era perigoso andar nas calçadas do distrito financeiro de Nova York durante o "crash" de 1929. Você corria o risco de ser achatado por um arruinado suicida, mesmo não tendo nada a ver com a crise.
Ainda não se teve notícia de gente pulando das janelas em Wall Street recentemente mas alguém, depois de notar que a participação do banco central americano no salvamento da financeira Bear Stearns era a maior intervenção do estado no mercado em 80 anos, comentou que nada na crise atual era tão significativo quanto esta frase.
Onde está 80 leia-se 79, o número de anos que nos separa da crise de 1929, cuja possível repetição assusta alguns e anima outros.
Voltar 79 anos não é apenas voltar aos corpos se espatifando na calçada, é voltar ao fim catastrófico de anos de "laissez-faire" e ganância desenfreada que precedeu o New Deal de Roosevelt e o intervencionismo keynesiano, que vieram para acabar com a farra e salvar o capitalismo de si mesmo.
O que assusta alguns e anima outros é imaginar que a catástrofe atual possa ser igual, e provoque corretivos parecidos. Que estamos na crise terminal de outro período de vale-tudo, véspera de uma reabilitação do estado regulador, e do bom senso.
De qualquer jeito, você e eu, que não somos financistas nem costumamos passear pelas calçadas de Wall Street, precisamos estar atentos nessa crise. Mesmo não tendo nada a ver com ela, cedo ou tarde alguma coisa cairá sobre nossas cabeças.

Quase perfeito
Agora essa. Poucos dias depois de ser empossado como governador de Nova York em substituição ao espiroqueta Spitzer, o vice-governador David Baterson reuniu a imprensa para anunciar que ele também teve relacionamentos sexuais fora de casa, inclusive com uma funcionária do governo estadual, e que a sua mulher sabia e compreendia - inclusive porque ela também dava suas voltas pela vizinhança.
O que lembra aquela história da busca do candidato perfeito para governar um estado americano.
Queriam alguém que merecesse, como nenhum outro, o adjetivo "impoluto". Se se chamasse Impoluto, melhor ainda. Não poderia haver um pingo, um grão de escândalo em sua vida, nada que sugerisse um desvio de conduta, um mau hábito, um mau pensamento sequer.
E a comissão encarregada de encontrar o candidato perfeito, depois de muito procurar, finalmente o encontrou. Um santo, segundo o presidente da comissão.
Atividade sexual? Nenhuma. Possibilidade de ter tido no passado, ou ter no futuro, alguma atividade sexual? Nenhuma. Castrado? Não, desinteressado.
Dará um bom governador?
- Bom - disse o presidente da comissão - aí vocês já estão querendo demais...

domingo, 16 de março de 2008

A grande festa da comunidade - Luis Fernando Veríssimo

Uma crise de crédito nos Estados Unidos estremece os mercados financeiros do mundo inteiro, a quantidade de utilitários queimando gasolina nas estradas americanas tem tudo a ver com o que você e eu pagamos por ela no posto da esquina e muita gente que nem se lembra em quem votou para vereador no seu país, e por que, sabe a razão de preferir o Barack ou a Hillary. Gostando ou não, vivemos todos em arrabaldes da América. Não surpreende que a principal festa destes subúrbios concêntricos seja a da entrega dos Oscars, quando a fábrica de imagens do nosso centro festeja justamente o sortilégio que nos domina: a sua riqueza, a sua potência, o seu fascínio. Enfim, tudo o que nos mantém presos na poltrona até depois da meia noite, convencidos que mesmo o tédio entre as partes boas do espetáculo nos diz respeito. Afinal, é uma festa comunitária.
O ritual dos Oscars, como todos os rituais, tem suas reincidências. Desta vez não houve muitos momentos "Meu Deus do céu!", quando alguém que julgávamos morto há anos aparece no palco e é aplaudidíssimo por ainda estar vivo. Poucos vexames, também. Todos os agradecimentos foram comedidos, talvez porque tantos premiados fossem visitantes estrangeiros na cidade e nenhum fosse o Roberto Benigni, o que explicaria o bom comportamento geral. Se bem que o Javier Bardem, se entendi bem, passou o tempo todo aos beijos com a própria mãe. O momento mais classudo, ou apenas mais inglês, da noite foi o do Daniel Day Lewis ajoelhando-se diante da única realeza presente na festa, a Helen Merrin, antes de receber o Oscar das suas mãos.
O apresentador Jon Steward falou do pouco tempo que os escritores tiveram, depois do fim da sua greve, para preparar o roteiro do espetáculo, mas a sua melhor piada pareceu feita na hora. Depois de notar que três atrizes presentes no teatro estavam grávidas, disse que talvez fosse cedo para fazer uma contagem final, já que a noite recém começara e Jack nicholson estava no recinto. Quem mais gostou da piada foi Nicholson, hoje o velho sátiro oficial de Hollywood. Steward apresenta um show na TV que costuma baixar o pau no Bush mas houve poucas referências políticas durante a noite. Na questão das guerras no Oriente Médio, deu empate técnico. Uma seqüência em que soldados americanos no Iraque anunciaram os vencedores numa categoria, depois a premiação de um documentário sobre um afegão torturado até a morte numa base americana. No seu agradecimento o diretor do documentário fez um breve protesto contra a tortura e mencionou Guantanamo e abu Graieb. não se falou mais no assunto.
Não deram um Oscar para a favorita sentimental de todo o mundo, Julie Cristie, mas não houve grandes injustiças nas premiações. Só acho que o prêmio para melhor fotografia deveria ser do "Onde os frescos não têm vez", ou que título deram ao filme em português. A paisagem, como em todos os filmes dos irmãos Coen, aquela dupla de farmacêuticos que, ninguém sabe como, faz cinema, tem uma participação essencial na história e no seu tom de aridez moral. Na verdade, a maior injustiça da noite foi não darem à paisagem do filme dos Coen o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Faltam estadistas - Luis Fernado Veríssimo

A Colômbia não tem só mais soldados e ar- mas do que a Venezuela e o Equador juntos, como mostram os gráficos que os jornais têm publicado sobre essa possível meleca na região. Tem mais prática em guerra e violência do que todo o resto da América do Sul. Lá, liberais e conservadores já foram para o pau, em guerras civis, mais de uma vez. O clima de confronto permanente e a rotina da violência antecedem as lutas contra o narcotráfico e entre as Farc , militares e paramilitares. Vêm do século dezenove, fazem parte do cotidiano e das tradições políticas dos colombianos - que, no entanto, dizem todos, vivem num país raro também por suas outras tradições, como a de uma elite cultural importante e a da rara criatividade dos seus artistas, e não é preciso nem lembrar Garcia Márquez, Botero - ou Fredy Rincon.
Meu pai trabalhou na Organização dos Estados Americanos, onde conheceu Alberto Lleras Camargo, que já tinha sido presidente da Colômbia e era então secretário-geral da OEA. Um cargo onde não parecia estar muito confortável, com a sua terra dominada por uma ditadura militar que perseguia liberais como ele. Em 1957, de volta a Colômbia, Lleras Camargo liderou o movimento que derrubou o ditador Gustavo Rojas Pinilla e depois o governo de coalizão liberal/conservador - inédito na história do país - que o substituiu, e que conseguiu ficar no poder por doze anos relativamente pacíficos. Nas suas memórias, meu pai o descreveu como "um homem lúcido, inteligente e bravo" cujo "comportamento ulterior revelou sua fibra física e moral", e como "o único político latino-americano, entre todos os que encontrei, que possuía realmente qualidades de estadista". Não me lembro de jamais ter visto a figura de Lleras Camargo, mas a admiração do meu pai de certa forma transformou-o num parâmetro para a minha imaginação juvenil. Anos depois, era ao seu exemplo que eu recorria para tentar entender o paradoxo colombiano.
Ele era a imagem do melhor que a aristocracia latino-americana poderia produzir, e ao mesmo tempo um produto daquela sociedade em eterno conflito, daquele tiroteio interminável. Liberais e conservadores enfrentam-se em todo o continente, mas é na Colômbia que está a linha de choque. Lleras Camargo morreu em 1990, informa-me o Google. Não sei se o paradoxo colombiano produziu outros como ele. Sem dúvida o que falta à região, e à situação criada com a invasão colombiana, a indignação do Equador às bravatas do Chaves, é um estadista. Mas desconfio que não fazem mais lleras camargos como antigamente.

segunda-feira, 3 de março de 2008

A questão - Luis Fernando Veríssimo

É difícil imaginar um negro como Barack Obama sendo eleito presidente - do Brasil. Dos Estados Unidos, talvez. Lá um negro já chegou a secretrário de Estado, e foi substituído no cargo por uma negra. Desculpe: afrodescendentes. Pelo menos não escrevi "um negão como Barak Obama", ou, para mostrar que não sou racista, "um negrinho".
A diferença entre um país e outro é essa. Lá o racismo é uma questão nacional. Aqui uma ficção de integração dilui a questão racial. E se a questão não existe, se ninguém é racista, por que nos preocuparmos com denominações corretas ou incorretas? Só quando a ficção é desafiada, como no caso das cotas universitárias, é que o apartheid que não se reconhece aparece. Um dos marcos das relações raciais nos Estados Unidos não foi a primeira vez em que um negro interpretou um herói no cinema, provavelmente o Sidney Poitier. Nem a primeira vez em que um negro e uma branca, ou vice-versa, namoraram na tela. Foi a primeira vez em que um negro foi o vilão do filme. Colin Powell e Condoleezza Rice, que chegaram a secretários de Estado, e o próprio Obama, devem suas carreiras a esse vilão histórico, que significou o fim dos estereótipos e a aceitação, sem melindres, de que negro também pode ser ruim, igual a branco. Se a cor da pele não determinava mais que ele fosse sempre retratado como um inferior virtuoso ou uma vítima, também não o descriminava de outras maneiras. Powell e Rice levaram essa reversão de esteréotipos ainda mais longe.
Os dois são do partido republicano. Como Clarence Thomas, único juiz negro da Suprema Corte americana que também é um dos seus membros mais conservadores. Claro que a cor da pele vai ser um fator na eleição ou não do Obama, como o fato de ser mulher vai ajudar ou não a Hillary. Por isso mesmo, sua possível eleição seria uma prova dessa transformação da questão racial no país, uma vitória numa guerra por direitos iguais que lá - ao contrário do Brasil - nunca foi disfarçada, ou desconversada. Aqui a miscigenação significou que alguns quase-negros, ou só um pouco afro-descendentes, chegassem ao poder, mas miscigenação entre nós não tem significado integração por vias naturais, e sim apenas outra forma de despolitizar e adiar a questão.
Obama será o candidato dos democratas? Estão comparando sua campanha com a de Bob Kennedy, pelo entusiasmo que provoca numa faixa de idade que não se interessava tanto por política desde a mobilização contra a guerra do Vietnã. Li que 40 por cento dos americanos que podem votar este ano nunca conheceram outro presidente que não fosse um Bush ou o Clinton, e Hillary seria outro Clinton nessa dança de dinastias. Assim, Obama seria uma novidade em mais do que o sentido racial. Como se precisasse outros.
Na comparação com Bob Kennedy, claro, ninguém ainda lembrou (pelo menos não sem bater na madeira) que aquela novidade terminou numa poça de sangue, no chão de uma cozinha de hotel. Batamos todos na madeira.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

"Como es mala Maria de Fátima" - Luis Fernando Veríssimo

Uma vez fui a uma feira de livros em Miami e acabei num jantar para os convidados latino-americanos, oferecido pela comunidade hispânica da cidade. Arroz com pollo. O único outro brasileiros no jantar era o Milton Hatoum. O amazonense Milton não só falava um espanhol perfeito como - o mais surpreendente e humilhante para mim, que como gaúcho me considerava um quase-platino com pleno domínio do espanhol, que se não era minha língua-mãe, era certamente uma língua-tia - compreendia tudo que os outros falavam. Eu não compreendia nada. Ou apenas o suficiente para notar que o assunto principal dos presentes era Cuba, de onde a maioria era natural. Pareciam falar com uma mistura de nostalgia e rancor, mas foi só uma impressão que não confirmei com o Milton. O que me espantou foi minha incapacidade de entendê-los. Não falar o espanhol não era nada, eu também mal falo português. Mas, durante todo o jantar, só entender "más arroz?" e pouca coisa mais era desconcertante. Eu estaria bloqueando o que ouvia? Me sentindo tão deslocado, ali, que me recusava a entender o que diziam? O espanhol da Espanha não é o mesmo falado nas Américas e o espanhol (por exemplo) argentino não é igual ao mexicano. Cada fala espanhola seguiu seu curso a partir da vertente comum, mas aquele espanhol dos exilados cubanos era de uma estranheza extrema, ao menos aos meus ouvidos. Era como uma língua que tivesse se deteriorado ao ponto de virar outra, só compreensível pelos seus usuários. E pelo Hatoum. Me ocorreu que na apreciação do que aconteceu em Cuba depois da revolução do Fidel as opiniões tinham se diversificado tanto que pareciam línguas diferentes. A narrativa inicial da revolução fora num espanhol puro, que ninguém discutia: um governo tirano e corrupto derrubado por jovens idealistas dispostos a fazer uma sociedade limpa e justa. Uma narrativa clássica. Mas com seus primeiro atos Fidel e seus companheiros começaram a divisão das línguas, que foram se distanciando com o tempo e hoje são idiomas estanques: o dos que nunca perderam a admiração pela experiência cubana, o dos que se desiludiram um pouco ou completamente e o dos que não perdoam o que Fidel fez, com Cuba e com eles. Cada um fala o seu espanhol e não entende o do outro. Entre eles nenhum consenso é possível, com ou sem "arroz com pollo". M i a m i foi o mais perto que já cheguei de Cuba mas minha filha Fernanda esteve lá, há alguns anos. Numa festa, conheceu o irmão mais velho de Fidel, Ramon, que foi muito simpático. Conversaram sobre a novela brasileira que fazia sucesso na TV cubana, na época, e Dom Ramon disse que daria qualquer coisa para saber como terminava "Vale tudo". E comentou: "Como es mala Maria de Fátima!". Os dois não tiveram problema de língua. Falavam Globo.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Racismo – Luis Fernando Veríssimo

Preconceito racial e discriminação racial são duas coisas diferentes.
O preconceito é um sentimento, fruto de condicionamento cultural ou de uma deformação mental, mas sempre incorrigível. Não se legisla sobre sentimentos, não se muda um habito de pensamento ou uma convicção herdada por decreto. Já a descriminação racial é o preconceito determinando atitudes, políticas, oportunidades e direitos, o convívio social e o econômico. Não se pode coagir ninguém a gostar de quem não gosta, mas qualquer sociedade democrática, para desmentir o nome, deve combater a descriminação por todos os meios – inclusive a coação.
Não concordo com quem diz que uma política de cotas para negros no estudo superior é discriminação. É coação, certo, mais para tentar corrigir um dos desequilíbrios que persistem na sociedade brasileira, o que reflete na educação a desigualdade de oportunidades de brancos e negros em todos os setores, mal disfarçada pela velha conversa da harmonia racial tão nossa. As cotas seriam irrealistas? Melhor igualdade artificial do que igualdade nenhuma.
Agora mesmo caíram em cima de quem disse – numa frase obviamente arrancada do contexto – que racismo de negro contra branco é justificável. Nenhum racismo é justificável, mas o ressentimento dos negros é. Construiu-se durante todos os anos em que a última nação do mundo a acabar com a escravatura continuou na prática o que o tinha abolido no papel. Não se esperava que o preconceito acabasse com o decreto da abolição, mas mais de 100 anos deveriam ter sido mais do que suficientes para que a discriminação diminuísse. Não diminuiu.
Igualar racismo de negro com racismo de branco não resiste a um teste elementar. O negro pode dizer – distinguindo com nitidez preconceito de descriminação – “Não precisa me amar, só me dê meus direitos”. Qual a frase mais próxima disto que um branco poderia dizer, sem provocar risos? “Não precisa me amar, só tenha paciência”? “Me ame, apesar de tudo”?. Pouco convincente.
É uma questão que vai e vem, como as marés. A velha oposição, na seleção brasileira, do time do povo e o time do técnico. Quando as coisas vão bem (Brasil 4, Chile 0) não há discussão, quando as coisas vão mal (Brasil ali ali, Gana 0) volta a questão. O povo quer os melhores sempre no time. Isto se repete há anos. Mudam os técnicos, mudam os melhores, muda, em boa parte o povo, e a questão continua indo e vindo. Como as marés.