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sexta-feira, 4 de abril de 2008

Ética de princípios - RUBEM ALVES

AS DUAS ÉTICAS: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos -a que os filósofos dão o nome de ética contextual.
Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre os estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não vêem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe...
Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos vêem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...
Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo.
O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: "Doutor, será que eu escapo desta?"
Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer?
Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: "Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer..." Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações.
A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.
Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: "Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano -"A senhora breve estará curada...'-, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?" E ele dirá:
"Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer..." Aí, então, os dois conversarão longamente -como se estivessem de mãos dadas ...- sobre a morte que os dois haverão de enfrentar. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade.
Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem.
Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da Aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará?
Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: "Qual delas está mais a serviço do amor?"

sábado, 29 de março de 2008

A carne assassina - CARLOS HEITOR CONY

Não, não me refiro àquele inimigo da alma: a Carne, que, junto com o Diabo e o Mundo, renunciamos no momento em que somos batizados. O padre pergunta ao recém-nascido se ele renuncia ao Diabo, ao Mundo e à Carne. Como o batizando ainda não fala, fala o padrinho, que renuncia ao Diabo, ao Mundo e à Carne em nome da criança. O padrinho funciona como uma espécie de laranja.
A carne a que me refiro é a carne mesmo, de boi, porco, cabrito, cordeiro ou de qualquer outro animal que tenha carne vermelha, como a nossa. Descobriram que a carne faz mal, é uma carne assassina. Tal como o fumo, que tira 15 minutos de vida a cada cigarro que se fuma. Dentro desse cálculo, eu já deveria ter morrido há uns 40 anos, nem sei como continuo vivo. Mais para lá do que para cá, mas vivo.
Quando ministro da Saúde, o Zé Serra impôs aquelas figurinhas nos maços de cigarro para desestimular os fumantes. Homens cadavéricos morrendo em CTIs, em cadeiras de roda após enfartes violentos e até mesmo impotentes sexuais. Valeu tudo, todas as mazelas físicas e espirituais para mostrar os malefícios do fumo.
Mais dia, menos dia, com a carne vermelha acontecerá o mesmo. Ela não será proibida, porque haverá lobby de produtores, frigoríficos, açougues, churrascarias, restaurantes etc. Mas, a cada bife que recebermos em nossa mesa, virá alguma forma de advertência, uma imagem espetada em cima da carne, estampando um caixão de defunto, um cemitério, uma caveira com os ossos cruzados, como na bandeira dos piratas.
Confesso que ficarei deveras impressionado. (Nunca usei o "deveras", mas usado está.) Nem por isso deixarei de apreciar um bife suntuoso, uma picanha na brasa. Sem prazer, a vida não vale a pena, mesmo que a alma não seja pequena.