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segunda-feira, 10 de março de 2008

Valentões de palácio - CLÓVIS ROSSI

Se você fosse chamado de canalha por alguém, se apressaria a apertar a mão do desafeto, no dia seguinte, todo sorrisos? Se você fosse acusado por alguém de financiar grupos delinqüentes, aceitaria, também todo sorrisos, o cumprimento de quem o acusou?

Se respondeu sim a ambas as perguntas, parabéns. Você está pronto para ser presidente de algum país da América Latina. Foi esse, afinal, o comportamento dos presidentes Álvaro Uribe (Colômbia), Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador), na cúpula do Grupo do Rio, recém-encerrada na República Dominicana.
Depois os políticos se queixam do crescente distanciamento entre representantes e representados, da crescente indiferença (ou repúdio ou nojo) dos mortais comuns ao jogo político.
Sempre haverá algum debilóide com aquela visão binária (e indigente) para retrucar: ah, então você queria que eles fossem à guerra? (Ou aos tapas, porque meter-se na selva mesmo e lá trocar tiros, nenhum deles nem passa perto).
O problema não é ir ou não à guerra ou aos tapas, mas ser sério ou não. É, no caso, não ter armado o formidável imbróglio que armaram. Se fossem sérios não precisariam depois praticar essas cenas explícitas de hipocrisia.
A América Latina está saindo da era do realismo mágico, tão bem narrado por Gabriel García Márquez, para cair na farsa. Ficam esses valentões de palácio a berrar contra o imperialismo, mas:
1) Correa não mudou a dolarização introduzida por um de seus antecessores, o que é ceder parte da soberania equatoriana ao império;
2) Chávez continua vendendo a maior fatia de seu petróleo para os Estados Unidos, segundo ele responsável por todos os males do planeta ou além dele. Cães que ladram para a Lua são até engraçadinhos. Governantes que o fazem são ridículos.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Faltam estadistas - Luis Fernado Veríssimo

A Colômbia não tem só mais soldados e ar- mas do que a Venezuela e o Equador juntos, como mostram os gráficos que os jornais têm publicado sobre essa possível meleca na região. Tem mais prática em guerra e violência do que todo o resto da América do Sul. Lá, liberais e conservadores já foram para o pau, em guerras civis, mais de uma vez. O clima de confronto permanente e a rotina da violência antecedem as lutas contra o narcotráfico e entre as Farc , militares e paramilitares. Vêm do século dezenove, fazem parte do cotidiano e das tradições políticas dos colombianos - que, no entanto, dizem todos, vivem num país raro também por suas outras tradições, como a de uma elite cultural importante e a da rara criatividade dos seus artistas, e não é preciso nem lembrar Garcia Márquez, Botero - ou Fredy Rincon.
Meu pai trabalhou na Organização dos Estados Americanos, onde conheceu Alberto Lleras Camargo, que já tinha sido presidente da Colômbia e era então secretário-geral da OEA. Um cargo onde não parecia estar muito confortável, com a sua terra dominada por uma ditadura militar que perseguia liberais como ele. Em 1957, de volta a Colômbia, Lleras Camargo liderou o movimento que derrubou o ditador Gustavo Rojas Pinilla e depois o governo de coalizão liberal/conservador - inédito na história do país - que o substituiu, e que conseguiu ficar no poder por doze anos relativamente pacíficos. Nas suas memórias, meu pai o descreveu como "um homem lúcido, inteligente e bravo" cujo "comportamento ulterior revelou sua fibra física e moral", e como "o único político latino-americano, entre todos os que encontrei, que possuía realmente qualidades de estadista". Não me lembro de jamais ter visto a figura de Lleras Camargo, mas a admiração do meu pai de certa forma transformou-o num parâmetro para a minha imaginação juvenil. Anos depois, era ao seu exemplo que eu recorria para tentar entender o paradoxo colombiano.
Ele era a imagem do melhor que a aristocracia latino-americana poderia produzir, e ao mesmo tempo um produto daquela sociedade em eterno conflito, daquele tiroteio interminável. Liberais e conservadores enfrentam-se em todo o continente, mas é na Colômbia que está a linha de choque. Lleras Camargo morreu em 1990, informa-me o Google. Não sei se o paradoxo colombiano produziu outros como ele. Sem dúvida o que falta à região, e à situação criada com a invasão colombiana, a indignação do Equador às bravatas do Chaves, é um estadista. Mas desconfio que não fazem mais lleras camargos como antigamente.