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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A História o absolverá? - Zuenir Ventura

A renúncia de Fidel Castro recebeu da imprensa daqui e do exterior tratamento de obituário, com direito a balanço de vida e obra, e aquele tom de despedida. Obituário é a última homenagem que os jornais prestam aos mortos. Na verdade, havia razão para isso. A desistência teve muito de morte política. O que, no caso de um personagem histórico, é pior do que a morte biológica (a propósito, só Lula não viu que o amigo estava com o "estado de saúde precário".
No mês passado, saiu da visita ao enfermo dizendo que a saúde de Fidel era "impecável" e que ele estava "pronto para assumir o papel que tem em Cuba"). Para a minha geração, que acompanhou a saga dos heróis de Sierra Maestra, fazendo deles seus ídolos, foi melancólico. Camilo Cienfuegos e Che Guevara nos tinham acostumado a só sair de cena pela morte, que é como saem os mitos. Se era para se retirar desse jeito, por que não antes? Em 1995, quando o escritor Rubem Fonseca e eu estivemos em Cuba para o Prêmio Casa das Américas, já era visível o ocaso do comandante.
Num jantar no Palácio, assistimos a cenas incríveis. Cercado por um imenso cordão de puxa-sacos, o ditador se exibia para uma platéia cativa que achava graça em tudo o que ouvia. Depois, numa longa entrevista que nos deu (na saída, mandou um assessor recolher as fitas), respondeu a uma pergunta sobre por que não deixava o poder. Resignado, suspirou: "No puedo. Bem que gostaria, mas não há condição. Eles não deixam." "Eles" era o povo.
Divertido também foi vê-lo vangloriar-se de andar na rua sem segurança, e em seguida ser acompanhado ao banheiro por dois guarda-costas. Estava conosco Senel Paz, autor do livro "O lobo, o bosque e o homem novo", que dera origem ao filme "Morango e chocolate". O escritor não era um dissidente, apenas um crítico do regime. Cuba já tinha consagrado o livro e o filme, mas o comandante se recusava a ler e a ver a história de um jovem comunista que se torna amigo de um artista gay.
O clima cultural lembrava o do Brasil dos anos 70. O país enfrentava a crise causada pelo colapso da URSS, e já se percebiam os efeitos do turismo de massa na rua: vendedores clandestinos de charuto e meninas oferecendo o corpo por dinheiro. Chamava a atenção, sobretudo, a distância entre o atraso no campo dos direitos humanos -censura, presos políticos -- e o avanço no terreno das conquistas sociais -- altos níveis de alfabetização, baixas taxas de mortalidade infantil, invejável IDH.
Era como se liberdade de expressão e justiça social fossem incompatíveis. Se então, ou antes ou depois, tivesse conciliado as duas coisas, o autor de "A História me absolverá" certamente seria absolvido por ela. Agora, dificilmente.

Um drama de Fidel - CARLOS HEITOR CONY

Dos males da mídia, não apenas a nacional, mas a internacional, a redundância é a mais constante. A renúncia de Fidel Castro, após 49 anos de poder, antecedeu a inevitável e imensa cobertura que ele teria por ocasião de sua morte, que, sinceramente, desejo estar bem longe ainda.
Já foi dito que toda a unanimidade é burra. No caso de Fidel, nunca houve unanimidade, a não ser em seus começos revolucionários, quando teve o apoio maciço de seu povo para derrubar uma ditadura. Quando da morte de Che Guevara, foram muitos os que começaram a contestar a sua linha de subserviência a Moscou. Para mostrar independência, ele expulsou alguns diplomatas soviéticos e mandou prender comunistas cubanos, entre os quais Aníbal Escalante, o mais destacado líder do partido.
A reação foi brutal. A URSS suspendeu o abastecimento de petróleo que fornecia a Cuba, as centrales que produziam açúcar ficaram sem combustível, o petroleiro diário que abastecia a ilha passou a ser quinzenal, depois mensal. Era a ruína da precária economia cubana, começou a faltar de tudo na ilha.
Fidel sentiu necessidade de pedir desculpas ao Kremlin. A oportunidade veio em 1968, com a crise da antiga Tchecoslováquia. Foi o primeiro chefe de Estado comunista a ir a Moscou levando seu apoio à intervenção das forças do Pacto de Varsóvia que esmagaram a decantada Primavera de Praga. A ilha voltou a ser abastecida com o petróleo soviético.
O episódio comporta contraditórias explicações. Jogada de mestre de um chefe de governo diante de um desafio truculento vindo do exterior? Ou oportunismo velhaco de um político que traía os fundamentos da luta a favor de um povo? Na ocasião, a quem ele poderia pedir ajuda? Aos Estados Unidos?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O "pop star" se aposenta - Clóvis Rossi

Por Fidel Castro ser o mais longevo dos governantes do planeta, tudo o que se poderia dizer sobre ele já foi dito, de bom ou de ruim. De ditador a "benefactor", de herói a bandido, com todos os matizes intermediários, todos os rótulos já lhe foram aplicados. Resta-me uma perplexidade: como o líder de uma pequena ilha, praticante de um modelo que caiu em desuso, conseguiu manter-se, ainda assim, como um "pop star"? Conto o episódio que me aguçou essa perplexidade. Em 1997, comemorava-se, em Genebra, o 50º aniversário do Gatt (o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, substituído pela Organização Mundial do Comércio). A Genebra acudiram os suspeitos de sempre: chefes de Estado e de governo, autoridades dos mais diversos calibres, diplomatas em cachos e os indefectíveis seguranças, "aspones" e jornalistas que acompanhamos esse tipo de circo (sem nenhum desrespeito ao circo de verdade ou ao circo do "grand monde" planetário). Os suspeitos de sempre proferiram os discursos de sempre, enquanto a maior parte da "asponeria", dos jornalistas e dos funcionários não tão graduados ficávamos na cafeteria no subsolo do Palácio das Nações. Ninguém prestava atenção à discurseira, até que o mestre de cerimônias anuncia Fidel Alejandro Castro Ruz. O bruaaá das conversas é suplantado pelo arrastar de cadeiras na direção dos telões que transmitiam a cerimônia. Feito o silêncio, na cafeteria e um andar acima, Fidel Castro abre o discurso com "la vida es sueño, y los sueños, sueños son", um Calderón de la Barca que parecia profano naquele ambiente. Ao terminar, uma chuva de aplausos, inclusive de seus pares, 101% dos quais não tinham nem nunca tiveram nenhum parentesco e/ou simpatia com o comunismo. Difícil entender o que aconteceu ali.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

"Como es mala Maria de Fátima" - Luis Fernando Veríssimo

Uma vez fui a uma feira de livros em Miami e acabei num jantar para os convidados latino-americanos, oferecido pela comunidade hispânica da cidade. Arroz com pollo. O único outro brasileiros no jantar era o Milton Hatoum. O amazonense Milton não só falava um espanhol perfeito como - o mais surpreendente e humilhante para mim, que como gaúcho me considerava um quase-platino com pleno domínio do espanhol, que se não era minha língua-mãe, era certamente uma língua-tia - compreendia tudo que os outros falavam. Eu não compreendia nada. Ou apenas o suficiente para notar que o assunto principal dos presentes era Cuba, de onde a maioria era natural. Pareciam falar com uma mistura de nostalgia e rancor, mas foi só uma impressão que não confirmei com o Milton. O que me espantou foi minha incapacidade de entendê-los. Não falar o espanhol não era nada, eu também mal falo português. Mas, durante todo o jantar, só entender "más arroz?" e pouca coisa mais era desconcertante. Eu estaria bloqueando o que ouvia? Me sentindo tão deslocado, ali, que me recusava a entender o que diziam? O espanhol da Espanha não é o mesmo falado nas Américas e o espanhol (por exemplo) argentino não é igual ao mexicano. Cada fala espanhola seguiu seu curso a partir da vertente comum, mas aquele espanhol dos exilados cubanos era de uma estranheza extrema, ao menos aos meus ouvidos. Era como uma língua que tivesse se deteriorado ao ponto de virar outra, só compreensível pelos seus usuários. E pelo Hatoum. Me ocorreu que na apreciação do que aconteceu em Cuba depois da revolução do Fidel as opiniões tinham se diversificado tanto que pareciam línguas diferentes. A narrativa inicial da revolução fora num espanhol puro, que ninguém discutia: um governo tirano e corrupto derrubado por jovens idealistas dispostos a fazer uma sociedade limpa e justa. Uma narrativa clássica. Mas com seus primeiro atos Fidel e seus companheiros começaram a divisão das línguas, que foram se distanciando com o tempo e hoje são idiomas estanques: o dos que nunca perderam a admiração pela experiência cubana, o dos que se desiludiram um pouco ou completamente e o dos que não perdoam o que Fidel fez, com Cuba e com eles. Cada um fala o seu espanhol e não entende o do outro. Entre eles nenhum consenso é possível, com ou sem "arroz com pollo". M i a m i foi o mais perto que já cheguei de Cuba mas minha filha Fernanda esteve lá, há alguns anos. Numa festa, conheceu o irmão mais velho de Fidel, Ramon, que foi muito simpático. Conversaram sobre a novela brasileira que fazia sucesso na TV cubana, na época, e Dom Ramon disse que daria qualquer coisa para saber como terminava "Vale tudo". E comentou: "Como es mala Maria de Fátima!". Os dois não tiveram problema de língua. Falavam Globo.