terça-feira, 7 de junho de 2011
Tragédias na mídia - ROSELY SAYÃO
Que sentidos elas dão a esses fatos? Tomemos dois exemplos que chegaram a mim. Uma criança, de oito anos, perguntou à mãe se o pai poderia matá-la quando ficasse muito bravo. Outra, um pouco mais nova, perguntou se iria ficar de mãos amarradas quando fosse ao castigo. Certamente, muitos leitores devem ter passado por experiências semelhantes com seus filhos e seus alunos.
As crianças estão angustiadas com tais notícias porque identificam nelas que os adultos próximos, ao invés de de protetores, podem ser ameaçadores. Justamente aqueles em quem elas depositam a maior confiança se revelam, nas notícias, suspeitos de agir de modo contrário. E agora?
Agora, mais uma parte da infância de nossas crianças fica comprometida, fato cada vez mais banal. Mas será que não se pode fazer nada? Sim, podemos e devemos fazer algo por elas, que, sozinhas, não conseguem entender e expressar toda a angústia que as invade.
A maioria das escolas costuma ignorar o fato de que seus alunos sabem dessas notícias e continuam seus trabalhos como se nada de excepcional ocorresse. Pois todas elas têm recursos para, de alguma maneira, tratar dessas questões. É um bom momento, por exemplo, para oferecer aos alunos, nas aulas de expressão artística, estratégias para dar forma ao que eles imaginam, sentem e pensam sobre tais fatos.
O simples fato de colocar de modo simbólico sentimentos e angústias já aponta pistas sobre outras formas de trabalhar o tema. Depois, é importante que se fale a respeito, sem psicologismos nem interpretações leigas, para que, coletivamente, eles se sintam acolhidos em suas preocupações e aprendam sobre os direitos das crianças e dos adolescentes e os valores sociais da justiça e da responsabilidade com o bem comum.
Para os pais, esse é um bom momento para oferecer aos filhos mais segurança em relação aos vínculos familiares e dar maior relevância aos valores morais e éticos. É muito importante, por exemplo, afirmar que a família ama e respeita a vida, que nenhuma violência deve ser aceita pelos integrantes do grupo familiar, que casos como os noticiados são exceções -apesar de tanto alarde-, que os impulsos agressivos podem ser controlados e, também, estabelecer um diálogo a respeito das opiniões dos pais e dos filhos sobre esses fatos.
Todas as tragédias servem para nos fazer refletir sobre a humanidade e o nosso cotidiano. Por isso, é importante que os adultos pensem a respeito das pequenas violências, simbólicas ou reais, que o mundo adulto comete contra os mais novos. Afinal: nossas posições demonstram que somos a fim deles ou que estamos mais para ser o fim deles?
domingo, 21 de setembro de 2008
Sabor de infância - ROSELY SAYÃO
Essa região da Itália, chamada Emilia-Romagna, é rica não só em gastronomia, mas também em educação. É em Reggio Emília, cidade vizinha a Módena, que está o que é tido como o melhor projeto em educação infantil do mundo.
Estive lá e me deliciei com a preparação do almoço das crianças. Elas mesmas colocam a mesa, tuteladas pelos adultos, é claro. E sabem preparar a mesa até para as situações mais formais. Na hora do almoço, divertem-se, compartilham, experimentam quase tudo sem fazer drama. É que alimentação, como disse o chef italiano, "não é matemática, é emoção".
Já acompanhei a hora do lanche na educação infantil em várias escolas de São Paulo. As lancheiras estão sempre recheadas de produtos industrializados. A quantidade de crianças que leva um lanche preparado carinhosamente em casa é mínima. E não me refiro aqui à questão nutricional, e sim ao aconchego que pode significar a alimentação para a criança.
É a mãe que dá o melhor alimento ao filho quando ele nasce: o leite materno. E, quando o bebê é alimentado, não é só a fome do estômago que é saciada: é também a de carinho. É assim que nasce a sensação de prazer, e não só a de satisfação de uma necessidade, a alimentar.
É esse o modelo que poderia ser mantido à medida que a criança cresce, mas parece que, no mundo atual, a alimentação se transformou em consumo apenas ou, então, em questão nutricional. E dá-lhe comida balanceada ou industrializada!
Não vale dizer que hoje os pais não têm tempo para preparar o lanche do filho, já que essa tarefa demanda um mínimo de tempo, mas muito de dedicação. E é nessas situações simples que os pais podem expressar sua afetividade. Preparar um lanche inusitado ou um almoço acompanhados pelos filhos são situações que vão construir a memória de sabores e afetos da criança. Essa mesma memória que o chef italiano usa para criar seus pratos.
Muitos pais que preferem ir a restaurantes com os filhos nos fins de semana o fazem por considerarem trabalhoso fazer comida em casa. E não é trabalhoso ir ao restaurante? Certamente é. Envolver os filhos nas delícias da transformação de alimentos em comida gostosa para ser compartilhada é simples e fácil: basta ter coragem e disponibilidade. O resultado é visível: as crianças ficam bem mais tranqüilas e felizes.
Gastronomia e educação têm muito em comum: ambas exigem paciência e persistência, dedicação e disponibilidade, rigor, atenção aos detalhes e respeito à tradição, trazendo-a ao tempo presente.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Queremos a infância para nós - Rosely Sayão
Não é preciso muito para observar sinais dessa troca: basta olhar as pessoas no espaço público. É corriqueiro vermos meninas vestidas com roupas de adultos, inclusive sensuais: blusas e saias curtas, calças apertadas, meia-calça e sapatos de salto. E pensar que elas precisam é de roupa folgada para deixar o corpo explodir em movimentos que devem ser experimentados... Mas sempre há um traço que trai a idade: um brinquedo pendurado, um exagero de enfeites, um excesso de maquiagem etc.
Se olharmos as adultas, vestidas com o mesmo tipo de roupa das meninas descritas acima, vemos também brinquedos, carregados como enfeites ou amuletos: nos chaveiros, nas bolsas, nos telefones celulares, nos carros. Isso sem falar nas mesas de trabalho, enfeitadas com ícones do mundo infantil.
Criança pequena adora ter amigo imaginário, mas essa maravilhosa possibilidade tem sido destruída, pouco a pouco, pelo massacre da realidade do mundo adulto, que tem colaborado muito para desfazer a fantasia e o faz-de-conta. Mas os legítimos representantes desse mundo, por sua vez, não hesitam em ter o seu. Ultimamente, ele tem sido comum e ganhou o nome de deus. Não me refiro ao Deus das religiões e alvo da fé. A idéia de deus foi privatizada, e cada um tem o seu, à sua imagem e semelhança, mesmo sem professar religião nenhuma.
O amigo imaginário dos adultos chamado de deus é aquele com quem eles conversam animadamente, a quem chamam nos momentos de estresse, a quem recorrem sempre que enfrentam dificuldades, precisam tomar uma decisão ou anseiam por algo e, principalmente, para contornar a solidão. Nada como ter um amigo invisível, já que ele não exige lealdade, dedicação nem cobra nada, não é?
E o que dizer, então, das brincadeiras infantis que muitos adultos são obrigados a enfrentar quando fazem cursos, freqüentam seminários ou assistem a aulas? É um tal de assoprar bexigas, abraçar quem está ao lado, acender fósforo para expressar uma idéia, carregar uma pedra para ter a palavra no grupo, escolher um bicho como imagem de identificação, usar canetas coloridas para fazer trabalhos etc.
Mas, se existe uma manifestação comum a crianças e adultos para expressar alegria, contentamento, comemoração e afins, ela tem sido o grito. Que as crianças gritem porque ainda não descobriram outras maneiras de expressar emoções, dá para entender. Aliás, é bom lembrar que os educadores não têm colaborado para que elas aprendam a desenvolver outros tipos de expressão. Mas os adultos gritarem desesperada e estridentemente para manifestar emoção é constrangedor. Com tamanha confusão, fica a impressão de que roubamos a infância das crianças porque a queremos para nós, não?
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
A importância do faz-de-conta na vida da criança – Rosely Sayão
Às vezes, damos pequena importância às questões que fazem parte do universo dos filhos, sejam estes crianças ou adolescentes. Para os menores de seis anos, por exemplo, o mundo do faz-de-conta é fundamental - imprescindível, eu diria - para que eles tenham oportunidade de viver da melhor maneira possível essa fase da vida.
Muitos pais não estimulam os filhos a acreditarem nos mitos da infância, evitam contar histórias que têm personagens ou idéias que consideram inoportunas ou violentas – morte, perda, lutas etc - e até insistem em tentar convencer o filho de que isto ou aquilo não existe. É uma pena esse tipo de atitude já que, sem poder usar o recurso do mundo do faz-de-conta, o que resta às crianças é habitar o mundo adulto.
A primeira infância é tão curta, não é verdade? São apenas cinco ou seis anos em que a criança pode acreditar em fadas e príncipes, pode resolver seus conflitos e problemas à moda dos super-heróis, ser menino e menina ou criança e gente grande ao mesmo tempo, simular que vive como quer ou gostaria de viver.
É graças ao seu mundo imaginário que a criança elabora condições para enfrentar suas angústias e, principalmente, é a convicção de que tudo isso existe é que permite que ela confie que seus pais são onipotentes e, portanto, podem resolver qualquer problema em sua vida. Em resumo: a existência desse mundo é a garantia de segurança para a criança, além de tudo o mais.
A mãe de um menino de cinco anos contou um fato muito interessante a esse respeito. O garoto, ao conversar com a mãe e fazer referência a um personagem do mundo da imaginação, para identificar sobre o que falava, explicou: “Aquele, que vive nesse mundo que vocês não acreditam que existe”. E continuou: “nesse mundo em que a garotinha - que ele conhecia e que morrera recentemente – ainda vive”.
A fala desse menino mostra o quanto é vital para ele contar com o mundo do faz-de-conta. Num tempo em que a separação entre infância, adolescência e vida adulta é tão tênue, garantir isso à criança pode fazer a diferença para seu desenvolvimento saudável.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Os artistas - RUBEM ALVES
| O que dá alegria às crianças é a simplicidade dos desejos. Eu desejava pouco; portanto o pouco que tinha era muito |
MEU PAI foi homem rico em tempos antes do meu nascimento. Lembro-me só dos tempos de pobreza dos quais não tenho nem uma só memória triste. Isso deve soar estranho aos pais que pretendem dar felicidade aos seus filhos e tranqüilidade a si mesmos locupletando-os com brinquedos que logo ficam velhos e são abandonados. O que dá alegria às crianças não é a multiplicidade dos brinquedos mas a simplicidade dos desejos. Eu desejava pouco; portanto o pouco que eu tinha era muito.
Albert Camus escreveu nos Primeiros Cadernos: "Que pode um homem desejar de melhor do que a pobreza? Não disse miséria nem o trabalho sem esperança do proletário moderno. Mas não vejo o que pode desejar-se mais do que a pobreza ligada a um ócio ativo".
No meu ócio ativo entenda-se ócio ativo como o tempo livre para fazer o que eu quisesse, sem a perturbação da presença dos adultos -eu fazia meus próprios brinquedos. Está tudo contado no livro que escrevi para minhas netas "Quando eu era menino" (Papirus).
Mas antes de ir à falência e ficar pobre meu pai era dono de muita coisa na cidade. Fábricas, imóveis, serraria. Novidadeiro, apresentou à população pacata de Boa Esperança um assombro do progresso: água açucarada colorida endurecida e fria em torno de um pauzinho que era para ser chupada. Era o picolé que durante muitos dias foi o grande assunto das rodas de conversas dos ricos e dos pobres. Como é que a água mole ficava dura? Era também dono do cinema que passava filmes mudos explicados aos berros por um italiano. Profissão que não existe mais: explicador de filmes...
Pois um dia chegou a Boa Esperança pela jardineira que vinha de Três Pontas um casalzinho diferente, dois moços, que tinha ares de cidade grande. Ficaram perdidos ao descer da jardineira porque lá não havia nem pensão e nem hotel. Para agravar o embaraço havia o fato de serem artistas de teatro que chegavam àquele lugarzinho perdido para se apresentarem num espetáculo.
Sem saber o que fazer, foram procurar o Diano, meu pai, apelido do nome mais estranho que já vi, Herodiano... Meu pai logo se apressou e levou os dois para se hospedarem na sua casa. Alugaram o cinema do meu pai por uma noite e prometeram pagar com o lucro do espetáculo.
Meu pai, olhando para aquele casalzinho, pensou: "Mas ninguém vai gastar dinheiro para ver esses dois. Eles vão dar um espetáculo para ninguém..."
Meu pai não suportava ver ninguém sofrer. Pois sabem o que ele fez? Comprou a lotação inteira do seu próprio cinema e distribuiu os bilhetes pelo povo, gratuitamente.
O cinema ficou lotado. Ninguém recusa presente dado. O espetáculo foi um sucesso. Os artistas ficaram exultantes. Foram pagar o aluguel. Meu pai não aceitou. Saíram de Boa Esperança com a cara cheia de risos e o bolso cheio... de dinheiro do meu pai...
O nome do artista homem nunca me foi dito. Mas o nome da artista mulher era Dercy Gonçalves. É possível que ela nem mais se lembre desse ocorrido.
Esse episódio me veio à memória porque, se não me engano, no dia 23 de junho a eterna Dercy completou 100 anos. Ô, mulher maravilhosa. O tempo não pode com a alma dela!