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segunda-feira, 3 de março de 2008

O príncipe e Palocci - CLÓVIS ROSSI

Quer dizer, então, que o príncipe Harry serviu dez semanas no Afeganistão? Queria saber se há um só filho, já não digo de presidente da República, mas de um simples vereador da mais remota cidadezinha do mais remoto Estado brasileiro, a serviço com as tropas brasileiras no Haiti. Aliás, há algum filho de autoridade que não seja dispensado do serviço militar obrigatório?

O "Daily Telegraph" festejou a presença do príncipe assim: "Excluir o príncipe de operações de combate -como o Ministério da Defesa originalmente o fez, por causa do medo de que poria em particular perigo a sua unidade- sugeriria que há uma regra para os membros da família real e outra para o resto das Forças Armadas".
É um exagero. É óbvio que a família real britânica goza de "regras" (leia-se privilégios) que não estão ao alcance dos mortais comuns.
Mas o fato de Harry não ter sido poupado de uma estada nesse paraíso turístico chamado Afeganistão, comparado às "regras" não escritas que valem para a aristocracia brasileira não coroada nem titulada, é todo um compêndio sobre hábitos e costumes nada republicanos no pobre país tropical.
Por aqui, predomina o comportamento monárquico absolutista de quem detém fatias de poder, de que dá prova o caso Antonio Palocci.
Posso estar sendo ingênuo, mas continuo achando que Palocci não é um delinqüente. Cometeu, sim, uma delinqüência, na violação do sigilo do caseiro Francenildo dos Santos Costa.
Mas parece razoável atribuir a delinqüência não a um DNA delinqüencial mas à certeza de que a uma autoridade tudo está permitido, ainda mais contra os de baixo. Ou, para citar o "Telegraph", tinha a certeza de que "há uma regra para os membros da família real [no caso, o ministério da República] e outra para o resto".
É a República imperial.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Qual o nosso limite? - FERREIRA GULLAR

DO LAMENTÁVEL episódio em que cinco rapazes de classe média, moradores da Barra da Tijuca, roubaram e espancaram brutalmente uma empregada doméstica, vale destacar a atitude do pai de um deles, que correu imediatamente em defesa do filhinho de 19 anos. Alegou que aqueles rapagões, sarados e violentos, eram "crianças que estudam" e por isso não deviam ficar presos, uma vez que, na prisão, seriam misturados com bandidos.
Deve-se concluir que, embora sendo capazes de roubar e espancar mulheres, rapazes que moram em condomínio da Barra da Tijuca não são bandidos, já que bandido é quem mora em favela. Isso ajuda a entender o filho que ele tem.
Se não é justo atribuir essa atitude a todos os pais de classe média, é impossível não ver nela o sinal de uma visão que se generalizou e que, de certo modo, explica o grau de impunidade que caracteriza a sociedade brasileira.
Na frase daquele "paizão", está implícita a noção de que o respeito às normas sociais é coisa secundária e mesmo condenável, porque, no fundo, encobre o ranço repressivo que herdamos do passado e a vontade de vingança contra os criminosos. Isso é uma coisa que estou cansado de ouvir da boca de advogados e até de ministros da Justiça, muitos deles herdeiros da lição rebelde dos anos 60-70: "É proibido proibir", "Não acredito em ninguém que tenha mais de 30 anos".
Tudo isso era muito divertido, mas a verdade é que contribuiu para minar o princípio de que a sociedade necessita de normas, já que, sem elas, mergulharíamos no arbítrio, na violência e no caos.
Ainda não chegamos lá, nem chegaremos, porque a maioria das pessoas sabe, sem ter lido os juristas, que o respeito às normas é condição básica do convívio social. A Justiça não nasce no fundo do quintal, ela foi inventada pelo homem que necessita dela como do ar que respira. Mas isso não impede que, como no caso do Brasil, o respeito à Justiça e a aplicação das leis sejam vistos como expressão de intolerância e repressão.
Isso se percebe a cada momento e às vezes na boca daqueles que deveriam defender a aplicação rigorosa do princípio de justiça. Não consigo me esquecer das declarações do então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos defendendo o abrandamento da punição dos crimes hediondos, sob a alegação de que seu agravamento não fizera diminuir esse tipo de crime.
Ao ler tais declarações de um jurista, pensei comigo: se esse argumento é válido, então deveríamos revogar o Código Penal, já que sua vigência não impede que se pratiquem crimes no país.
Como se sabe, o condenado por crime hediondo, que até então não usufruía do direito de cumprir apenas um sexto da pena, agora usufrui, graças a uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, bandidos queimam vivas dezenove pessoas dentro de um ônibus, são condenados a 400 anos mas, como a pena máxima no Brasil é de 30 anos, poderão estar soltos depois de cumprir apenas cinco anos, isto é, um sexto da pena. Noutras palavras: em muitos casos, a pena máxima, no Brasil, é de cinco anos.
Parece brincadeira. E isso tudo é decidido apoiado em argumentos de difícil compreensão para nós, leigos, que não gozamos da sapiência jurídica. O fraseado estrambótico escapa à nossa compreensão, enquanto sua conclusão nos deixa indignados. Dá a impressão de que o aparelho jurídico que montamos e que nos custa tão caro existe para dificultar a aplicação da Justiça e beneficiar os criminosos.
Certamente não é assim, já que a maioria dos juízes defende a vigência da Justiça. Não obstante, na prática, prevalece a impunidade.
A garantia da impunidade conta com todo um aparato, que vai desde a falta de escrúpulos do advogado de defesa -cuja função parece ser impedir que se faça justiça- até as minudências jurídicas que, na hora H, anulam o processo.
- Mas por quê, meritíssimo?
- Ele pôs vírgula entre o sujeito e o verbo! Dura lex sed lex.
Isso sem falar naquele juiz que adulterou o parecer do colega para permitir que se libertasse um dos maiores traficantes internacionais. Condenado a 20 anos por tráfico de drogas e respondendo a processos por evasão de divisas, contrabando, falsificação e apropriação indébita, foi solto por ter, segundo o referido juiz, bons antecedentes.
Bons? Pois eu diria ótimos antecedentes, levando-se em conta a noção de ética que vai tomando conta do país.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Ídolos Brasileirinho - EDUARDO REIS

O programa Ídolos do SBT é um sucesso de venda e público isso não há a menor dúvida, o programa é o sonho do departamento comercial da emissora e vem rendendo bons índices no Ibope na briga pela vice-liderança.

Porém somente nesta segunda versão é que o programa realmente ganhou a cara do Brasil, o que não se esperava que acontecesse tão rapidamente, já que a formula é importada do sucesso norte americano, American Idol, que na verdade também não é o original, mais isso é detalhe. O certo é que o Ídolos tentou de todas as formas em sua primeira edição seguir as regras do seu abre alas americano, o que gerou um programa brasileiro sem a menor cara de Brasil, onde seus cantores, salvo raras exceções queriam ser o novo sucesso pop, quando na verdade esse tão sonhado gênero nunca existiu no Brasil.

Ser pop no nosso país é ser popular mais não chega a ser um gênero como ocorre em outros paises, aqui você pode ser pop cantando sertanejo, axé, pagode, calypso, rock, mais se você quer ser um cantor pop você vai acabar assim como o vencedor da edição passada do programa, no esquecimento. Infelizmente esqueceram de avisar ao Leandro que não há espaço para esse tipo de cantor no Brasil.

Mais afinal o que torna o programa mais brasileiro? Com certeza não é a direção do programa que insiste em seguir uma linha muito próxima ao padrão americano, porém que peca em não ter a mesma estrutura deles, deixando a desejar em coisas básicas para o programa como uma banda e a edição ao vivo.

Os apresentadores também não ajudam em nada, parecem dois robôs, suas falas parecem que já foram marcadas pela direção, quando isso não acontece e fazem uma improvisação, deixam transparecer suas imaturidades como apresentadores, mais isso é aceitável, já que também existem poucos, porém bons momentos de lucidez, além deles não serem a atração principal deste show.

Os jurados é um caso a parte, esses sim trazem com sigo a originalidade, eles não querem imitar os jurados de fora, eles passam uma verdade, porém pouco falam e pouco ajudam o candidato, muitas vezes se prendem em detalhes bestas para comentar como a dança, o cabelo ou a roupa do candidato, ta certo que para ser um ídolo você deve cuidar de tudo, mais não deve ser o principal.

Mais na verdade onde o Brasil mostrou a sua cara dentro do programa foi nos candidatos, agora sim temos a diversidade brasileira sendo exposta no programa, o país é uma mistura de ritmos, onde a sua maioria esta lá representada, nesta edição temos pagodeiro, sertanejo, cantora de calypso, black music, cantores românticos, rap, temos de um tudo, e isso deixa o programa mais interessante de se assistir, por isso se você gosta de diversidade, não desgruda.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Tropa de choque - CARLOS HEITOR CONY

Ninguém escondeu, nem mesmo o próprio presidente da República: o novo ministério, que é o velho ministério recauchutado, não é uma equipe executiva para levar o governo a algum desempenho específico. Evidente que os ministros despacharão, assinarão processos, farão declarações disso e daquilo, mas o critério que os escolheu, além de ser político (o que é natural), é sobretudo tático.
Com a experiência do mandato anterior, Lula tentou garantir uma base aliada no Congresso, não só para votar projetos do governo mas para impedir a criação de CPIs. Cada ministro representa, em tese, determinado número de votos no plenário das duas Casas do Legislativo.
Não é nada, ele passou raspando pelo impeachment com as comissões anteriores -foi salvo porque a oposição parece que se contentou com a cassação de José Dirceu e com o terremoto que sacudiu o PT, degolando a cabeça de notáveis parceiros de Lula.
Não se sabe o que vem pela frente, e o governo precisa da maioria estável para não repetir o vexame do mensalão -dinheiro grosso que corria a cada votação de interesse do Planalto.
Além de medida preventiva, ao garantir a maioria, Lula terá espaço para articular a mudança na Constituição que lhe garanta um terceiro mandato. Tem tempo para isso e trunfos. Mudará os ministros que não lhe tragam votos concretos na hora adequada.
Em princípio, não há na nova equipe um candidato a superministro. Os dois anteriores (Dirceu e Palocci) foram ceifados, serviram de escudo para proteger a figura central do governo. Mesmo assim, houve momentos em que a coisa parecia balançar. Lula escapou porque, entre outras coisas, além de garantir que não sabia de nada, não se empenhou em defender os dois cabeças de seu governo anterior.