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quinta-feira, 3 de abril de 2008

No papo de quem? - ELIANE CANTANHÊDE

Só não vê quem não quer: a tese da re-reeleição de Lula, reprimida em público, corre solta em corações e mentes do governo, do PT e da base aliada.
O próprio vice-presidente, José Alencar, disse à rádio Bandeirantes: "O Lula deseja fazer o seu sucessor. Mas eu digo para você que, se perguntarem aos brasileiros, o que os brasileiros desejam é que o Lula fique mais tempo no poder".
Em politiquês, leia-se: segundo Alencar, Lula não quer e não tem nada a ver com isso, mas os eleitores estão doidos para empurrá-lo rampa acima de novo. O vice, nada menos que o vice, namora publicamente com a possibilidade do terceiro mandato do presidente.
Lula não pode admitir uma barbaridade dessas a dois anos das eleições presidenciais, mas a idéia paira sobre o Brasil, empurrada pelas circunstâncias políticas internas e pelos ventos sul-americanos.
Na política interna: José Dirceu caiu, Antonio Palocci despencou, Dilma Rousseff nem decolou e já sacoleja sob o impacto do dossiê do uiscão. O PT não tinha quadros para repor Dirceu e Palocci, nem tem um Plano B para o caso de Dilma não sair do chão. E convém desconfiar do interesse petista em apoiar um corpo estranho, apesar de aliado. Ciro Gomes (PSB), por exemplo, que vai bem nas pesquisas.
Enquanto isso, Lula navega em recordes de popularidade, diz o que bem entende, onde bem entende, e avisa que a oposição "pode ir tirando o cavalinho da chuva", porque a eleição de 2010 está no papo. OK. Mas no papo de quem?
Quanto ao continente: Chávez perdeu o referendo na Venezuela, mas deixou um rastro continuísta.
Por ora, Néstor já estendeu o mandato Kirchner, elegendo Cristina na Argentina, e Álvaro Uribe está assanhado na Colômbia. Porque, como diria Alencar, o povo quer.
No Brasil, o "povo" pode vir a querer, e a política, a viabilizar. Lula vai na onda e justifica: "Eu sou a "metamorfose ambulante", lembram?".

terça-feira, 1 de abril de 2008

Uma a menos? - ELIANE CANTANHÊDE

O Palácio do Planalto e uma penca de ministros desmentiram publicamente a existência do tal dossiê contra o casal FHC-Ruth Cardoso, e a ministra Dilma Rousseff chegou ao requinte de telefonar para a ex-primeira-dama garantindo que não havia nada disso. No tortuoso caminho para desmentir os desmentidos, o "dossiê" derrapou, virou "banco de dados" e um vexame nacional.

Parte do vexame é tentar atribuir o vazamento do dossiê do uiscão a algum tucano infiltrado no Planalto. Um tucano próximo o suficiente para ter acesso à operação e a seus detalhes, mas distante o bastante para entregar o ouro dos companheiros? Com Lula no segundo mandato, no quinto ano de governo e blindado por uma popularidade na estratosfera?
Olhando de fora, o mais provável é que o PT esteja exercitando uma velha prática do PT: a luta interna. Dilma Rousseff foi saudada como dura na queda, incorruptível, vítima da ditadura e boa executiva num governo em que bons executivos são (ou eram) peças raríssimas. Já são qualidades suficientes para atiçar um preconceito daqui, um ciúme dali e, claro, inveja de tudo quanto é lado.
Mas, ao se tornar "mãe do PAC" e presidenciável do coração de Lula, acendeu um outro sentimento ao seu redor: o da disputa. Ministros, governadores e a companheirada petista em geral engoliria assim, tão facilmente, a candidatura de uma neófita saída do PDT? Gritalhona?
Com 3% nas pesquisas? Ora, ora.
Em vez de tucanos infiltrados, Dilma deveria olhar à sua esquerda e à sua direita para identificar resistências à preferida de Lula para 2010. Uma coisa é certa: alguns caciques petistas podem nem ter nada a ver com o vazamento, mas não ficaram nem um pouco tristes com o sufoco da ministra e o recuo da presidenciável. Ao contrário.
O dossiê passa, e a fila anda -a fila de presidenciáveis petistas loucos pela bênção de Lula.


sexta-feira, 7 de março de 2008

Em casa - ELIANE CANTANHÊDE

Não há crise boa, mas sempre se podem tirar boas lições de uma crise. Uma dessas lições agora é que a OEA (Organização dos Estados Americanos) não apenas ressurgiu das cinzas como conseguiu algo inédito, ou pelo menos muito raro, ao discutir o conflito Colômbia-Equador. Os EUA não ficaram no centro das discussões e das decisões. Prevaleceu a diplomacia latino-americana.
A ofensiva diplomática dos países mais moderados do continente, como Brasil, Chile e Argentina, surtiu efeito: a OEA condenou um ato, não um país. Condenou a violação territorial do Equador, sem atacar diretamente o governo da Colômbia. Isso resultou numa decisão por aclamação, com Rafael Correa (Equador) e Alvaro Uribe (Colômbia) concordando com os termos e com as duas decisões práticas: 1) a criação de uma comissão de investigação das circunstâncias em que forças militares colombianas aniquilaram um acampamento das Farc em solo equatoriano; 2) uma reunião de chanceleres no próximo dia 17 para avaliar resultados.
"É o início do fim da crise", ouvi de um diplomata de primeiro escalão. Mas ainda há muito o que fazer. No mínimo, os "bombeiros" ganham tempo, enquanto trabalham intensamente para obter um pedido de desculpas formal e incisivo do colombiano Uribe e se preparam para apaziguar os ânimos, ainda exaltados, do equatoriano Correa.
Lula e Celso Amorim conseguiram manter o Brasil muitíssimo bem posicionado, em condições de tanto negociar com Uribe quanto com Correa, junto com Chile e Argentina. Para isso, recorreram desde o início à mesma estratégia que veio a ser adotada pela OEA: condenar atos, não governos; sugerir a comissão para chegar a uma versão única do episódio; tirar os belicosos Chávez e Bush da jogada.
Resolvido o agudo da crise, agora é tentar reconciliar Colômbia e Equador em níveis de civilidade, sem esquecer as Farc, é claro.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Guerra Fria e Quente - ELIANE CANTANHÊDE

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim e seis após Lula renegar o Foro de São Paulo para aderir ao neoliberalismo que condenava nos tucanos, a América Latina ainda vive a Guerra Fria.
Estamos levemente atrasados, convenhamos. E a brincadeira começa a ficar perigosa.
Na conversa que tive ontem com o presidente do Equador, Rafael Correa, ele não só repetiu que estava disposto a chegar "às últimas conseqüências", como vinha insistindo, mas foi adiante: "não excluo a hipótese de guerra", disse.
A impressão é que algo não caminhou bem na conversa com Lula, pela manhã, no Planalto. A intensão de Lula era serenar os ânimos, mas Correa entrou e saiu atirando.
Também negou o pedido do presidente brasileiro para se encontrar com o inimigo Álvaro Uribe, da Colômbia, não aceitou restringir o conflito a uma questão só bilateral e ainda por cima recusou o papel de intermediário do Brasil.
O discurso de Correa está muito mais para Hugo Chávez do que para Lula da Silva, que, aliás, não deu as caras para tirar fotos ao lado do equatoriano. A prevista entrevista coletiva de Correa virou um pronunciamento sem direito a perguntas, e quem o acompanhou no Planalto -em silêncio- foi o chanceler Celso Amorim.
Falar em distensão, em serenar os ânimos, todas essas coisas, está ficando bastante difícil. Até porque, na Guerra Fria extemporânea e levemente ridícula da América Latina, a ameaça militar está falando mais alto do que a diplomacia.
Se vai ter guerra de fato? Muitíssimo improvável, mas o momento é bastante grave. Se fosse só a Colômbia de um lado e o Equador de outro, ainda assim seria difícil, mas mais fácil e negociável. Mas o que de fato existe hoje são os padrinhos, EUA e Venezuela, em lados opostos. Aí está o perigo.

domingo, 6 de maio de 2007

Apagão celular - ELIANE CANTANHÊDE

Só para citar dois pólos: os celulares são campeões de reclamação no Procon tanto do rico São Paulo quanto do pobre Sergipe.
Antes de optar. consulte a lista das mais denunciadas. E fuja!
As reclamações vão desde problemas nos aparelhos (defeitos, falta de peças...) até a prestação de serviço pelas operadoras, que vai de mal a pior. Inclusive porque elas dão de ombros para o que seriam os controles de Estado, como a Anatel, agência reguladora, e os próprios Procons. É como se estivessem acima das instâncias de defesa do consumidor -leia-se: contribuinte.
As suspeitas/acusações são de jeitinhos para cobranças indevidas, exorbitantes. As contas não chegam em domicílio. Se você tenta por telefone, passa por verdadeiras sessões de tortura. Se busca pessoalmente nas lojas, só contêm o total, sem detalhar os gastos.
Para ter a conta completa, é preciso senha, uma espera que pode durar duas, três horas e ainda muita paciência para enfrentar a falta de paciência do funcionário. Sabe como é: se a empresa está acima do Estado, o funcionário está acima de você. Simples assim. No final, aparece uma conta milionária.
Você pode fazer uma, duas, dez reclamações protocoladas na empresa, durante meses a fio, indo de um ano a outro, e nada. Aí, você recorre à Anatel e descobre que é preciso uma Anatel da Anatel, que não resolve nada. Aí, você cai no Procon, que resolve para uns, não para outros. Aí, só resta a Justiça -e você sabe como a Justiça é.
Depois de cancelada a conta, pior ainda: a fatura do "resíduo" não chega, seu número não está mais no sistema, o débito vira juros e correção e você pode gritar, se esgoelar, enfartar, mas não vai conseguir... se desvincular da empresa. O cancelamento foi em março? Prepare-se para ficar pagando "juros" até junho, julho...
Kafkiano? Que nada. Kafka é fichinha perto disso.
PS - Saio de férias. Até a volta!