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segunda-feira, 14 de maio de 2007

O mal das religiões - ATEU - RICARDO BONALUME NETO

Era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones e estudou num colégio católico liberal. Por isso fiquei chateado ao ouvir John Lennon em "Imagine" cantar como seria bom o mundo sem religião. Demorou para cair a ficha. Aos poucos o adolescente começou a entender a história e o papel das religiões no mundo. Como elas causam guerras, reprimem a sexualidade, prejudicam o avanço da ciência. Inquisição, talebãs, criacionismo, neoevangélicos movidos a dinheiro dos pobres: a lista de barbaridades praticadas pelas religiões organizadas e por seus seguidores mais fanáticos é imensa.
Sobraria "deus" (com minúscula). Afinal, o ente "superior" não pode ser diretamente vinculado às bobagens feitas em seu nome. Mas para que serve deus? Desta vez John Lennon não me chateou quando cantou que "deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor". Ah, me dizem, quando você estiver muito doente, vai encontrar deus. Bem, ainda não aconteceu, nem quando estive internado com pneumonia. Fiquei num quarto com um colega com câncer no pulmão. Quando foi feito o teste para saber se tinha a doença, ele pegou o envelope das mãos do médico e correu para uma igreja para abri-lo ali. Não adiantou.
Para explicar o mundo, deus é desnecessário. Mesmo que a ciência nunca explique tudo, é melhor ser humilde e reconhecer limitações do que procurar uma explicação fácil e reconfortante: "Foi deus".

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Perguntaram-me se acredito em Deus... - RUBEM ALVES

A CONTECEU AO final de um debate sobre educação promovido pela Folha. Chegada a hora das perguntas uma senhora me perguntou algo que nada tinha a ver com educação. Perguntou porque lhe doía: "O senhor acredita em Deus?" Houve tempo em que era mais fácil acreditar em Deus. Hoje até o Papa se atrapalha. Na sua visita ao campo de concentração de Treblinka perguntou o que não deveria ter perguntado: "Onde estava Deus quando esse horror aconteceu?"
Heresia porque a pergunta silenciosamente afirma que Deus não estava lá. Se estivesse não teria deixado aquele horror acontecer. Pois Deus não é amor e todo poderoso? Se estava lá e deixou acontecer ou ele não é amor ou não é todo poderoso. Por outro lado, se ele não estava lá ele não é onipresente...
Depois do atentado terrorista ao World Trade Center o "New York Times" publicou um artigo com essa mesma pergunta: Onde estava Deus? Se estava lá, por que deixou acontecer?
Dietrich Bonhoffer, pastor protestante que foi enforcado por haver participado de um frustrado atentado para assassinar Hitler -às vezes não há como fugir: ou matar um único, para que muitos não sejam mortos, ou, para preservar a pureza pessoal, não matar esse único e deixar que milhares sejam mortos; a inocência pode ser mais criminosa que o crime..., lutou com essa pergunta: "Onde está Deus?" Sua resposta foi simples: "Deus está aqui, mas ele é fraco..."
Se Deus existe e é forte, como perdoá-lo por permitir que aconteça o horror de sofrimento que não deveria acontecer? Mas se Deus é fraco ou não existe, então seria possível perdoá-lo e amá-lo. Aí choraríamos e diríamos: "Se Deus existisse e fosse forte isso não aconteceria..." A gente fica, então, com saudade do Deus que não existe. Mas eu não disse nada disso para aquela senhora. Apenas perguntei de volta, pedindo um esclarecimento: "Acreditar em qual Deus? Há tantos... Homens ferozes e vingativos têm um Deus feroz e vingativo que mantém, para sua própria alegria, uma câmara de torturas chamada Inferno para vingar-se dos seus desafetos. Há o Deus jardineiro que criou um Paraíso e mora nas árvores e nas correntes cristalinas. Há o Deus com alma de banqueiro que contabiliza débitos e créditos... Há o Deus da Cecília Meireles que se confunde com o mar... Há o Deus erótico que inspira poemas de amor carnal... Há o Deus que se vende por promessas e faz milagres... E há também o Deus criança de Alberto Caeiro e Mário Quintana. Qual deles?"
Ela ficou em silêncio, meio perdida. Então lhe respondi com os versos do Chico: "Saudade é o revés do parto. É arrumar o quarto para o filho que já morreu".
E perguntei: "Qual é a mãe que mais ama? A que arruma o quarto para o filho que chegará amanhã ou a que arruma o quarto para o filho que nunca chegará?".
E acrescentei: "Sou um construtor de altares. Construo meus altares à beira de um abismo. Eu os construo com poesia e beleza. Os fogos que acendo sobre eles iluminam o meu rosto e aquecem o meu corpo. Mas o abismo continua escuro e silencioso..."
Aí, provocado pela pergunta daquela mulher desconhecida escrevi um livrinho cujo título é a pergunta que ela me fez: "Perguntaram-me se acredito em Deus". Àquela mulher o meu muito obrigado...