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quinta-feira, 7 de junho de 2007

Seria uma pena - CARLOS HEITOR CONY

Se dependesse de mim, Lula teria sofrido um impeachment no final de seu primeiro mandato, por conta dos escândalos do mensalão. Impossível que ele não soubesse e não tolerasse a corrupção que se instalou à sua volta, ceifando inclusive o seu auxiliar mais próximo e importante.
A vida seguiu seu curso, ele foi reeleito, não fez nada que prestasse até agora e lançou o PAC -que está abastecendo novos escândalos. Mesmo assim, sem dar a mão à palmatória (a vida segue em frente e muita água continuará movendo os moinhos de sempre), acredito que, em termos de imagem pública e pessoal, ele se saiu bem em dois lances recentes.
Em entrevista a um jornalista da BBC, em Londres, ele deu um show, não negou fogo em nenhuma das provocações que recebeu, defendeu a posição do Brasil em relação à Amazônia de forma brilhante, fazendo o jornalista gaguejar diante das razões que apresentou.
Nesta semana, foi surpreendido com o indiciamento de seu irmão mais velho pela Polícia Federal e com a prisão de amigos de longa data que estariam comprometidos com o sistema dos bingos. Dizem que sua primeira reação foi violenta, soltou os palavrões que o homem comum costuma soltar quando contrariado. Mas, em público, falando como presidente da República, botou as coisas no devido lugar.
Pessoalmente, garantiu que acredita na inocência de seu irmão, entre outros motivos, porque "ele não tem cabeça para fazer lobby". A inocência seria de ordem intelectual. Como presidente, ele não só elogiou e apoiou as ações da PF como a estimulou a continuar o seu trabalho, tentando acabar com as diversas fontes de corrupção.
Pode ser que, por baixo do pano, ele faça algum movimento para livrar a cara do irmão e dos amigos. Será uma pena.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Comandantes comandados - CLÓVIS ROSSI

Uma coisa é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciar, faz já quatro anos, a iminência do espetáculo do crescimento sem que o show jamais tenha sido encenado.
Outra coisa, bem mais grave, é seu colega George Walker Bush, também faz quatro anos, falar em "missão cumprida", em relação à Guerra do Iraque, apenas para que, no quarto aniversário do anúncio, o líder da maioria democrata, Harry Reid, diga o contrário: "A guerra está perdida". Estabelecida a diferença, passemos às semelhanças.
Semelhança 1 - Governos mentem. Faz muito tempo que o fazem, mas não deixa de ser surpreendente que continuem a fazê-lo -e até aumentem o tamanho das mentiras- em plena era da informação, que, supostamente, tudo devassa.
Semelhança 2 (e mais grave) -Quando não mentem por iniciativa própria, o fazem porque seus assessores mentem para eles. Caso de Lula: leigo em economia, jamais se animaria a anunciar o espetáculo do crescimento se algum "aspone" de grosso calibre não lhe tivesse soprado algo a respeito.
No caso de Bush, o livro de George Tenet, ex-chefe da CIA na época dos atentados do 11 de Setembro e da Guerra do Iraque, mostra um formidável círculo de assessores contando ao chefe mentiras sobre o vínculo entre a Al Qaeda e Saddam Hussein, para não falar das tais armas de destruição em massa.
Parece haver aí uma conclusão inescapável: as máquinas governamentais, ao menos em países grandes (ricos ou emergentes, não importa), escaparam ao controle dos eleitores e, pior ainda, de seus próprios chefes. Como mesmo os mais aplicados não conseguem saber de tudo -seja sobre a economia interna, seja sobre a situação em outro país-, não governam de fato. Reagem a comandos. Pode até dar certo, mas o risco é formidável, como o demonstra o Iraque.