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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Uns braços! - CARLOS HEITOR CONY

Já contei a entrevista que fiz com Francisco Mignone por ocasião de seus 80 anos. Como qualquer jornalista imbecil, perguntei-lhe sobre seu compositor preferido ao longo de tão longa vida. Com aquele jeito malandro que ele tinha -e que o tornava tão simpático-, o maestro disse que foi mudando com o tempo.
Aos 30 anos, quando lhe faziam a mesma pergunta, ele respondia que gostava de Beethoven. Aos 50, a resposta era outra: Bach. Mas, aos 60, quando nada mais devia a ninguém, respondia com a verdade que escondera durante tanto tempo: Puccini.
Ao iniciar a carreira de compositor, ele se sentiria constrangido em confessar sua preferência por um autor de ópera italiana. Roncava os grandes nomes que fizeram a glória musical daquele miolo da Europa Central.
"Mas perdi a vergonha", disse ele.
Comigo aconteceu coisa parecida em relação a Machado de Assis. Aos 30 anos, confessava meu amor por "Dom Casmurro". Aos 40, fixei-me em "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Aos 50, assumi definitivamente "Quincas Borba", e fiquei com ele até hoje.
Quem sabe o bem ou o mal que se esconde nas preferências que vão mudando com o tempo?
Pulando da música e da literatura para a mulher (não parecem, mas têm tudo em comum), conheço um sujeito que já foi vidrado nas pernas de Cid Charisse, nos olhos de Lyz Taylor, nos seios monumentais de Sophia Loren. Só recentemente descobriu que a atração maior de seu desejo eram os braços. Não sei se ele andou lendo o conto de Machado de Assis. Outro dia, encontrei-o bestificado no meio da rua. Perguntei o que havia. Ele parecia encantado, fora do mundo. Respondeu num gemido de luxúria: "Vi uns braços!".
E mais não disse nem foi preciso.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Um país-piada - CLÓVIS ROSSI

   Em qualquer lugar do mundo, empresas aéreas chamam os clientes para os aeroportos, únicos lugares dos quais podem decolar os aviões. Em qualquer lugar menos no Brasil, claro, que não é um lugar qualquer, mas uma imensa piada feita país.
A Gol emitia ontem instruções aos passageiros para que fizessem qualquer coisa, menos ir aos aeroportos, porque, no país-piada, aviões não decolam de aeroportos, ficam estacionados.
No mesmo dia em que a Gol fazia tão insólito apelo, a Varig, recém-adquirida pela mesmíssima Gol, soltava uma promoção que também é piada. Título: "Todo mundo vai voar". Oferece 90% de desconto para todos os destinos domésticos operados pela companhia, mas só neste fim de semana.
É exatamente o fim de semana em que ninguém deve ir aos aeroportos, segundo recomendação da nova dona da empresa que diz que "todo mundo vai voar".
Vai não.Tanto que outro dos atores do circense drama aéreo tupiniquim dizia ontem: "Uma paralisação longa como essa destrói a malha aérea do país. Estamos, praticamente, começando do zero neste sábado", lamentava José Carlos Pereira, presidente da Infraero, referindo-se ao "motim" dos controladores de tráfego aéreo.
"Motim" cujo encerramento foi negociado não por gente do setor, como o ministro da Defesa ou mesmo o presidente em exercício, José Alencar, que já foi ministro da Defesa, mas pelo ministro do Planejamento, que não tem por que entender alguma coisa do assunto.
Mas, no país-piada, é até melhor que seja o ministro Paulo Bernardo a negociar. Afinal, seu chefe, Lula, dizia em dezembro: "Acho que acabou a crise. A situação parece já ter se normalizado".
É outra piada, porque, três meses depois, a "normalidade" antevista por Lula era tamanha que a Gol mandava fugir do aeroporto.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Tropa de choque - CARLOS HEITOR CONY

Ninguém escondeu, nem mesmo o próprio presidente da República: o novo ministério, que é o velho ministério recauchutado, não é uma equipe executiva para levar o governo a algum desempenho específico. Evidente que os ministros despacharão, assinarão processos, farão declarações disso e daquilo, mas o critério que os escolheu, além de ser político (o que é natural), é sobretudo tático.
Com a experiência do mandato anterior, Lula tentou garantir uma base aliada no Congresso, não só para votar projetos do governo mas para impedir a criação de CPIs. Cada ministro representa, em tese, determinado número de votos no plenário das duas Casas do Legislativo.
Não é nada, ele passou raspando pelo impeachment com as comissões anteriores -foi salvo porque a oposição parece que se contentou com a cassação de José Dirceu e com o terremoto que sacudiu o PT, degolando a cabeça de notáveis parceiros de Lula.
Não se sabe o que vem pela frente, e o governo precisa da maioria estável para não repetir o vexame do mensalão -dinheiro grosso que corria a cada votação de interesse do Planalto.
Além de medida preventiva, ao garantir a maioria, Lula terá espaço para articular a mudança na Constituição que lhe garanta um terceiro mandato. Tem tempo para isso e trunfos. Mudará os ministros que não lhe tragam votos concretos na hora adequada.
Em princípio, não há na nova equipe um candidato a superministro. Os dois anteriores (Dirceu e Palocci) foram ceifados, serviram de escudo para proteger a figura central do governo. Mesmo assim, houve momentos em que a coisa parecia balançar. Lula escapou porque, entre outras coisas, além de garantir que não sabia de nada, não se empenhou em defender os dois cabeças de seu governo anterior.

sábado, 24 de março de 2007

Como Comecei a Escrever - Rubem Braga

Já contei em uma crônica a primeira vez que vi meu nome em letra de forma: foi no jornalzinho "O ltapemirim", órgão oficial do Grêmio Domingos Martins, dos alunos do colégio Pedro Palácios, de Cachoeiro de Itapemirim. O professor de Português passara uma composição "A Lágrima" — e meu trabalho foi julgado tão bom que mereceu a honra de ser publicado.Eu ainda estava no curso secundário quando um de meus irmãos mais velhos — Armando — fundou em Cachoeiro um jornal que existe até hoje — o "Correio do Sul". Fui convidado a escrever alguma coisa, o que também aconteceu com meu irmão Newton, que fazia principalmente poemas.Eu escrevia artigos e crônicas sobre assuntos os mais variados; no verão mandava da praia de Marataizes uma crônica regular, chamada "Correio Maratimba". Quando fui para o Rio (na verdade para Niterói) por volta dos 15 anos, mandava correspondência para o Correio. Continuei a fazer o mesmo em 1931, quando mudei para Belo Horizonte.A essa altura meu irmão Newton trabalhava na redação do "Diário da Tarde" de Minas. Em começo de 1932 ele deixou o emprego e voltou para Cachoeiro; herdei seu lugar no jornal.
Passei então a escrever diária e efetivamente, e fui aprendendo a redigir com os profissionais como Octavio Xavier Ferreira e Newton Prates. Quando terminei meu curso de Direito, resolvi continuar trabalhando em jornal.Fazia crônicas, reportagens e serviços de redação. Ainda em 1932 tive uma experiência bastante séria: fuI fazer reportagem na frente de guerra da Mantiqueira missão aventurosa porque a direção de meu jornal'era favorável à Revolução Constitucionalista dos paulistas, e eu estava na frente getulista. Acabei preso e mandado de volta.A essa altura eu já era um profissional de imprensa, e nunca mais deixei de ser.