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terça-feira, 24 de julho de 2012

O poder (e o mundo) paralelo - Zuenir Ventura

Além das chocantes revelações e das cenas de horror mostradas, as recentes reportagens sobre o tribunal do tráfico no Rio, de Mauro Ventura (é difícil disfarçar o orgulho paterno pelo feito jornalístico do filho), não deixam de impressionar também pela naturalidade com que a população local aceita e, em muitos casos, aprova as leis dos bandidos, comprometendo a imagem do carioca como povo cordial e solidário. O poder marginal se implantou e se expandiu de tal maneira nessas comunidades, impondo seus códigos de conduta, que pode ter criado não apenas um domínio à parte, mas todo um mundo paralelo aonde, por não ter chegado a república, impera a barbárie. No vazio deixado pela longa ausência do estado, desenvolveu-se um arremedo institucional em que os traficantes se arvoram em policiais, juízes, promotores e executores de penas que vão das formas mais cruéis de tortura até os métodos mais hediondos de execução, como o "microondas" (o "réu" é torrado, preso a pneus em chamas).
O julgamento do menino de 15 anos testemunhado pelo repórter não aconteceu escondido num canto da favela , mas na forma de um espetáculo interativo, com direito à presença de espectadores participantes. Como informa a reportagem, é uma oportunidade que alguns moradores tratam de aproveitar. "A cena lhes é familiar - não é a primeira vez que vêem o destino de um bandido ser decidido à sua frente, em meio a uma área pública do morro". A diferença é que agora o réu não é o costumeiro X-9 ou um eventual estuprador. Mas um reles "rato de favela", um ladrãozinho reincidente que rouba na vizinhança, o que é proibido pelos traficantes. Roubar, só fora dali. Nas platéias desses justiçamentos, há os que às vezes se compadecem e recorrem aos pastores evangélicos, chamando-os para interromper o suplício e evitar a morte. Mas há também os que assistem insensíveis e até os que compartilham do ritual monstruoso, dando sua contribuição ou simplesmente torcendo: "tem que matar!", "merece morrer!".
Lendo o relato e percebendo os riscos que correu o autor da matéria, não pude deixar de me lembrar do martírio a que um desses tribunais submeteu até a morte nosso querido colega Tim Lopes - e ainda bem que minha mulher e eu só soubemos da matéria depois de impressa no jornal. Senão diria o que disse em e-mail o major André Batista, que foi do Bope e que inspirou um dos personagens do filme "Tropa de Elite", o capitão que estuda na PUC. "Você pirou completamente, cara", escreveu ele, advertindo Mauro com indiscutível conhecimento de causa. "Você poderia ter morrido". Também repetiria o apelo que o excaveira fez: "rogo para que você continue a produzir excelentes reportagens como sempre fez, mas pelo amor de Deus não vire estatística, aponte-as".

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Eles voltaram a atacar - Zuenir Ventura

Vocês se lembram daqueles telefonemas em que bandidos simulavam o seqüestro de um filho ou filha, ameaçando-os de morte se o resgate não fosse pago? O tormento parecia ter acabado, ou pelo menos não se ouvia mais falar dessas histórias de horror. Pois voltaram. Pude acompanhar dois casos próximos a mim, mas tem havido outros mais, segundo a polícia. O que há de novo é que os marginais sofisticaram os seus métodos. A encenação, por exemplo, é agora mais realista. Entre os que fazem o papel de vítima, há vozes de crianças e adolescentes que representam tão bem, são tão verossímeis, que a pessoa do outro lado do telefone, assustada e sob tensão, acaba acreditando que aqueles soluços, aqueles apelos angustiados são mesmo da filha ou do filho. Isso aconteceu com um sobrinho. "A voz era igualzinha à de minha filha. Falei como se fosse ela", conta. Ainda bem que ele, apesar do nervosismo, teve a presença de espírito de desligar o celular (antes ligavam mais para telefone fixo e, como agora, a cobrar) e conseguiu localizar a menina. Com minha irmã, foi parecido. Às cinco e meia de domingo passado, ela foi acordada com uma ligação a cobrar e ouviu a mesma história: "Estou com sua filha aqui com um revólver na cabeça, vou executá-la etc. etc." Aí entra a falsa vítima e implora aos prantos, mal podendo falar: "Mãe, pelo amor de Deus, me salva." Minha sobrinha, a suposta vítima, não estava no Brasil e só ia voltar à noite. Mas a farsa foi tão bem montada e o desespero tão grande, que também minha irmã, como meu sobrinho, acreditou ter ouvido a voz da filha, e passou mal: "Tenho certeza que a voz era dela", repetia. Ficou com essa "certeza" até a noite, só se acalmando quando ela chegou. Logo depois do telefonema, a outra filha, que estava em casa, acionou o número 190 e comunicou a ocorrência. O policial de plantão agradeceu: "Foi bom a senhora ter ligado, mas só hoje já houve cinco denúncias parecidas." Por colegas, ela soube de vários outros casos. Será que não há um meio de coibir essa prática ou de prender os autores? Antes se dizia que essas ligações partiam do presídio de segurança máxima de Bangu. Agora, que estão se generalizando, é portanto mais difícil descobrir os autores. A maneira mais eficaz de desestimular esses ataques é não atender chamadas a cobrar ou então desligar logo. O problema é que, apesar de conhecer o golpe, já tão divulgado pela imprensa, muita gente continua caindo nele. Às vezes, o bandido é ridicularizado. Um deles ligou para minha casa, caiu na secretária eletrônica e ele ficou desorientado: "É um seqüestro, pô, atende essa p... logo". Com um amigo, foi mais divertido. Ao receber a notícia de que o filho estava seqüestrado, ordenou tranqüilamente: "Pode matar, ele é muito chato." O rapaz, claro, estava do seu lado.