Mostrando postagens com marcador Marcelo Coelho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marcelo Coelho. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O prazer de matar mosquitos - MARCELO COELHO

UMA AMIGA que mora no Rio conta que a nova mania de consumo na cidade é uma raquete elétrica, utilizada para exterminar mosquitos. Na internet, pode ser comprada a preço baixo.
Depoimentos de consumidores não apenas comprovam a sua eficácia como também atestam o prazer que pode existir na eletrocução de pernilongos. O inseto é "fulminado" de um modo que nenhuma propaganda de aerossol poderia prometer em sã consciência.
E, se deixarmos a raquete em contato com o inimigo, ele "explode", emitindo um pequeno ruído capaz de satisfazer nossos instintos mais secretos de vingança.
Fico pensando se essa explosão não se deve à circunstância de o pernilongo estar já empanturrado do sangue de seu assassino. Seja como for, uma coisa é certa.
Alguém está ganhando dinheiro com o inusitado invento. É o que costuma acontecer nas crises.
Quem não se lembra daquelas lâmpadas econômicas que floresceram durante o apagão? Entrei feliz em casa, certo dia, com uma grande sacola de supermercado abarrotada do produto. Sentia-me colaborando com o esforço cívico imposto pelas autoridades e orgulhoso, além disso, de ser um consumidor inteligente.
Minha sensação de inteligência durou menos que o clique de um interruptor, porque eu não tinha reparado, na gôndola de ofertas, que todas aquelas lâmpadas eram para 220 volts.
Tivesse eu uma raquete elétrica naquele tempo, teria sem dúvida destruído, bulbo a bulbo, aquela coleção de inutilidades domésticas. "É eletricidade o que vocês querem?
Então, tomem isto!"
Hoje em dia, poucas daquelas lâmpadas sobrevivem, com sua luz zumbi, numa ou noutra sacada, na frente de alguma loja falida, em alguma sala de espera de hospital, onde, se for no Rio, gente com dengue faz fila, ardendo de febre e impotência.
Talvez por isso mesmo as raquetes elétricas atraiam tanto desejo de consumo. Na impotência, consumir é sempre um consolo.
Ainda mais quando o produto libera impulsos de agressividade. Talvez seja, infelizmente, uma verdade sobre a natureza humana o que observo a seguir.
Por mais que se diga que "prevenir é melhor do que remediar", ninguém tira nenhuma compensação simbólica, subjetiva, do fato de prevenir o que quer que seja. Qual a graça de esvaziar pneus velhos cheios de água, de tirar bacias de plástico do relento? E como dormir sossegado quando não se sabe se o vizinho, para nada dizer das autoridades, tomou alguma iniciativa para eliminar os ovos do mosquito?
De resto, o que é a contracepção, ou mesmo o aborto num início de gravidez, perto da eficácia, da visualidade épica e incontestável de um assassinato?
Na mesma linha de raciocínio, como acusar de homicidas os governantes? Fizeram pouquíssimo para impedir que a dengue vitimasse dezenas de crianças; mas, afinal, é disso mesmo que se trata. Não fizeram nada de mais.
Já a certeza concreta de ver o mosquito morto, longe de qualquer virtualidade preventiva, confere a cada cidadão um poder palpável. Ele faz a sua parte, ou melhor, faz justiça: todo pernilongo, embora possa não ser um Aedes aegypti, tem sua parcela de culpa.
Não é um daqueles jovens que são trucidados em supostos confrontos com a polícia, e que depois se revelam completos inocentes. E uma coisa é possuir um 38 dentro de casa, para corrigir possíveis omissões dos grupos de extermínio, e outra é dar voleios de raquete elétrica no remanso do lar, coisa bem mais divertida.
E sofisticada também. Costumo matar meus mosquitos à mão. Já me aconteceu a felicidade de encontrar um e outro pousado na página do livro que estava lendo: num gesto extremo e terminante de recusa à civilização, fechei o volume com raiva sobre a vítima. O pernilongo ficou para sempre ali, estampado como um asterisco histórico que atestasse, preto no branco, minha rara e microscópica contribuição ao bem-estar da humanidade.
O poder público que se recolha à sua insignificância, e não invente de proibir as raquetes elétricas.
São um símbolo do protagonismo civil e da livre iniciativa. São um adendo e um substituto ao perigoso esporte do frescobol em praias superlotadas. Mate-se o mosquito, o "meu" mosquito (de preferência com explosão), e que o resto do mundo sobreviva, como puder, no seu unânime zumbido de inseto.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Amarga descoberta científica - MARCELO COELHO

BEM QUE eu desconfiava. Passei anos consumindo chicletes sem açúcar e refrigerantes light, sem que a balança registrasse qualquer esperança de emagrecimento. Pesquisadores de uma universidade americana, segundo li recentemente, chegaram a uma excelente explicação para esse frustrante fenômeno doméstico.
O sabor doce da sacarina envia sinais ao cérebro, preparando o organismo para a ingestão de muitas calorias. As calorias não chegam; o cérebro se desregula, entra em pânico, exige o que lhe foi prometido.
Como resultado, o organismo consome mais comida, salgada, doce, amarga ou azeda, pouco importa.
Ou queima menos calorias. E o indivíduo que ingere sacarina termina tão ou mais gordo do que antes.
A experiência foi com ratos de laboratório. Tudo bem, posso não ser um rato. Mas em matéria de chocolates, tortas ou sorvetes, desconfio que minha voracidade cerebral pode muito bem ser comparada à de um roedor médio norte-americano.
A pesquisa haverá de trazer conseqüências terríveis. Nem falo das fábricas de adoçante. Penso no que pode acontecer se a descoberta for aplicada de outros modos.
Suponha, por exemplo, que em vez de provar um gole de guaraná diet, você esteja simplesmente vendo, na mesa ao lado do restaurante, um felizardo refestelar-se num caldeirão de fondue de chocolate.
Seu cérebro, como o de um camundongo, desejará mergulhar na calda derretida; o mero desejo será suficiente para que o seu organismo extraia, de meia bolacha de trigo integral, calorias suficientes para explodir os botões, que mal e mal se fecham, da camisa que você ganhou no mês passado.
Conclusão inevitável: assim como há fumantes passivos, há gordos passivos. Hesito em me incluir tão depressa nessa categoria, mas lanço a advertência.
Logo será necessário reservar alas especiais nos restaurantes para os que comem chocolate; um biombo, decorado com hortaliças, evitará a emissão de mensagens indevidas ao cérebro dos tristes obesos presentes no local.
Anuncia-se uma mudança de paradigma científico. No futuro, haverá mais remédios para o cérebro, e menos para o resto do corpo. E, menos do que regular nosso metabolismo, talvez a preocupação passe a ser, de agora em diante, controlar nosso desejo.
Todo sujeito que luta contra a própria obesidade sempre soube disso, aliás. O problema está nele mesmo. Nenhuma vulgar sacarina poderia ser a poção miraculosa capaz de transformar o seu destino de gordo.
Aquelas pérolas turvas, contadas com atenção, nunca substituíram o prazer de um doce; são na verdade um luxo suplementar, que em geral se economiza ("só duas gotas, obrigado"). Não se contam as calorias, contam-se as gotinhas.
Talvez os neurocientistas tenham de pesquisar também o efeito calmante, hipotensivo, antiansiógeno da sacarina. A insatisfação cerebral do rato alimentado com esse produto teria de ser comparada à angústia do humano que abandonou, para sempre, a ilusão de um emagrecimento à base de adoçantes. Curiosamente, a pesquisa confirma uma hipótese, à primeira vista alucinada, que li no livro "Mais Sexo É Sexo Mais Seguro" (editora Campus). O autor, Steven Landsburg, é um daqueles teóricos da "freakonomics" que se dedicam a aplicar as leis do mercado aos pequenos problemas do cotidiano.
É tão liberalofrênico que considera um absurdo as pessoas fazerem fila para tomar água num bebedouro público; num mundo racional, argumenta, furar filas faria muito mais sentido.
Landsburg arrisca a teoria de que a obesidade aumentou nos Estados Unidos porque mais pessoas consomem produtos light e remédios contra colesterol. Acham que estão cuidando da saúde, e terminam pesando 200 quilos.
E o McDonald's? É uma das explicações habituais para a engorda geral, que Landsburg descarta. "O McDonald's decidiu, por capricho, tornar todos mais gordos? Ou suas pesquisas de mercado revelaram que clientes maiores passaram a exigir porções maiores? Aposto na segunda hipótese; afinal, o McDonald's era tão ganancioso em 1970 quanto hoje."
O raciocínio é difícil de engolir, porque ignora um processo básico do mercado: o da livre concorrência, capaz de estimular que várias redes de lanchonetes entrem em competição no quesito calorias por centavo de dólar. Mas isso é assunto para outro dia; artigos, como hambúrgueres, fazem mal no modelo "supersized".