domingo, 20 de janeiro de 2008

Dialogando com o público leitor - João Ubaldo Ribeiro

– Boa tarde, o senhor me desculpe eu estar interrompendo sua leitura, mas é só um minutinho.
– Ah, pois não.
– É o seguinte, não é o senhor que é o escritor? O menino ali me disse que o senhor é o escritor.
– Bem, não sei se sou o escritor. Mas sou um escritor, sou, sim.
– Madalena, venha cá, é ele! Madalena! Chame Rosalvo e os meninos, é ele?
– O que foi que houve?
– Madalena é minha esposa, ela estava com vergonha de perguntar se era o senhor mesmo o escritor. Ela me disse que já tinha ouvido muito falar no senhor. E Rosalvo é meu cunhado, que conhece sua obra, é gente boa.
– Sim, eu...
– Não vou interromper nada, pode ficar descansado, o senhor pode continuar com sua leitura.
– Eu...
– Madalena, é ele mesmo! Você tinha razão, é ele. É boa gente, você sabe? Estamos aqui numa prosa ótima, ele é a simplicidade em pessoa. Olha aí, Rosalvo, é ele. Pode sentar, rapaz, ele não morde, há-há!
– Muito prazer, dá licença.
– Eu...
– Meu nome é Rosalvo Luiz da Anunciação Pereira, mas eu costumo assinar apenas Anunciação Pereira.
– Ah, sim, interessante.
– Admiro muito sua obra, O Sargento de Milícias.
– Mas não fui eu quem escreveu esse, foi outro. Bem que podia ter sido eu, mas não fui eu.
– Ah, então o senhor não é autor do “Sargento”?
– Sou, mas de outro sargento, o Sargento Getúlio.
– Ah, mas é claro, que besteira minha. O Sargento de Milícias é de Lima Duarte, não é?
– Lima Duarte? O Sargento...
– Sim, Lima Duarte, do Policarpo Quaresma, grande autor, para mim maior do que Machado de Assis.
– Lima Barreto.
– Sim, claro, claro, Lima Barreto, eu sempre confundo, Lima Duarte é outro.
– E não foi Lima Barreto que escreveu O Sargento de Milícias.
– E quem foi?
– Manoel Ant... Deixa pra lá, tudo bem, Seu Rosalvo.
– Pelo amor de Deus, nada de formalidades, que é isso de “Seu Rosalvo”, os amigos a gente trata pelo nome.
– Muito obrigado, gentileza sua.
– Que é isso que você está bebendo aí, posso dar uma cheiradinha? Ah, isso é caju! De hoje que eu não tomo uma batida de caju, vou pedir uma também enquanto a gente conversa, é coisa pouca, não vou tomar seu tempo, eu sei que você é um homem ocupado e precisa ler o jornal para estar por dentro do que acontece, o escritor tem de estar informado.
– Pois é, eu...
– Madalena, peça uma batida de caju no boteco e traga uns acarajés, uns abarás, uns tira-gostos, umas coisinhas. Quem bebe tem que comer, não é não?
– É, mas eu, pessoalmente, quando estou bebendo...
– Não vou tomar seu tempo, vou direto ao assunto. Eu também sou escritor.
– Ah, que bom, eu...
– Mas até hoje só publiquei um livro, que eu mesmo custeei, um livro de poemas em prosa e mais alguns escritos que eu reuni. Se eu soubesse que ia lhe encontrar aqui, eu lhe trazia um exemplar. Chama-se Retalhos de Mim. Não quero ser imodesto, mas muita gente boa... Não sei se você conhece o professor Martinho Lobo, conhece o professor Martinho Lobo?
– Não, infelizmente não, eu...
– Não conhece Martinho Lobo, da Academia de Odontólogos Escritores, que foi muitos anos professor de português no Central?
– Não, infelizmente...
– Bem, eu vou lhe mandar a cópia de um artigo que Martinho Lobo escreveu na Gazeta de Ipiaú a respeito desse livro meu, você vai ver que comentário interessante, ele foi muito feliz nas observações dele.
– Sim, mas eu...
– Ah, chegou o acarajé! O acarajé dessa baiana é uma beleza, é um dos melhores que eu já provei.
– Eu sei, eu conheço essa baiana desde menino.
– Ah, sim, claro. Com pimenta ou sem pimenta?
– Não, obrigado, eu detesto comer quando estou bebendo. Aliás, eu...
– Abará então? Hum, esse abará...
– Eu...
– Vou direto ao assunto, não quero tomar seu tempo. Para onde é que eu posso mandar uns originais que eu queria que você lesse? São 29 peças curtas, que eu prefiro não rotular, são pedaços de minha vida, de minha sensibilidade. Alguns você poderia chamar de contos. Não sei se você conhece aquela frase de Edgard de Andrade que diz que o conto é tudo aquilo que se chama de conto, conhece essa frase?
– Eu...
– Pois é, mas eu não quis chamar de contos, preferi não dar nome, chega de rótulos, de fórmulas, de coisas preestabelecidas, precisamos inovar a literatura, você não acha? Agora, se depois que você ler você achar que eu devo dizer que são contos, você é que sabe, você é que vai fazer o prefácio, não sou eu.
– Eu vou fazer o prefácio?
– Eu já tinha dito a Madalena e a Walter Augusto – Walter Augusto é meu cunhado, casado aqui com Madalena: eu vou lá conversar com ele e vou ser logo sincero, vou botar as cartas na mesa. Se eu quero o prefácio, pra que ficar enrolando, é ou não é? Madalena, me dê a caneta aí, para eu tomar nota do endereço dele para mandar os originais. Eu moro aqui na Bahia mesmo, isso chega rápido pelo correio, amanhã mesmo eu mando, deve estar aqui dois ou três dias depois, quer dizer, dá para esse prefácio estar pronto daqui para o outro domingo. Mas você não precisa ter o trabalho de me mandar o prefácio e me devolver os originais, eu mesmo venho aqui pegar tudo no próximo fim de semana e assim a gente aproveita para bater outro papo, depois que discutir o prefácio.
– Discutir o prefácio? Eu...
– Agora está na hora de uma cervejinha. Dê cá seu copo aí, que eu vou mandar lavar, que agora a gente vai numa lourinha estupidamente gelada que eu...
– Olha aqui, meu amigo, eu não vou fazer prefácio nenhum, não quero discutir nada com o senhor, não suporto mesa atulhada de caranguejo, folha de banana, farelo de acarajé, resto de vatapá e essa tralha toda aí e, mais do que tudo, não quero nem vou tomar cerveja nenhuma, largue meu copo aí, por favor.
– Mas minha intenção...
– O senhor vai me dar licença, eu vou embora.
– E o endereço?
– Que endereço, rapaz, eu vou lá lhe dar endereço?
– É isso que acontece, Madalena, o sujeito tem um sucessozinho, vira medalhão e aí pisa nos outros! Pode ir, pode ir, eu saberei vencer sozinho! Você já viu que indelicadeza, Madalena, ele age como se tivesse o rei na barriga, não sei o que ele está pensando que é, ainda se fosse um escritor importante mesmo, agora um cara desses que ninguém sabe quem é...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O amendoim e a fábula - CARLOS HEITOR CONY

VEIO DE longe para tentar a vida no Rio. Queria ser escritor. Até a idade de oito anos vendera amendoim torradinho.

Entre o amendoim torradinho e a glória, o caminho era duro, mas ele seria forte. O físico não ajudava: pequenino, magrinho, nervoso. Tipo ideal para extrema esquerda do Olaria.
Sabia escrever e escrevia bem. Não tinha cultura, mas ninguém precisa ter cultura para escrever. Cultura até atrapalha.

Amor também atrapalha. E começou a amar e a ficar atrapalhado. Quando levou o primeiro fora respeitável, deixou crescer a barba em sinal de protesto ou de dor. Protesto um tanto lírico, dor um tanto velhaca, mas a cara adquiriu aspectos sombrios, parecia efígie de selo belga.

Murmuram as línguas informadas que nunca esqueceu esse primeiro amor. Se não esqueceu, pelo menos não abriu as veias: enfrentou novamente a vida e o amor, e foi amando e escrevendo para os jornais. Mas, ao fim da noite, quando se olhava no espelho, ele sabia que amara e fora traído, sofrera e gozara apenas para esquecer a primeira.
Saía então para beber. Bebia e perdia o emprego. Mudou de jornal, em um ano percorreu todas as redações do Rio e todos os bairros onde houvesse mulher digna de seu amor e de sua dor. Ameaçava escrever um romance quando os amigos diziam que ele estava se perdendo.

Até que um dia correu a notícia: fugira com uma mulher casada para Brasília, num Volkswagen. A notícia tinha metade digna de crédito: a fuga com a mulher casada. A metade inverossímil era o Volkswagen -os tempos andavam magros, e ele não tinha dinheiro nem para o bonde.

Mas o carro podia ser da mulher, e aí a fuga faria sentido. Não fez sentido foi a semana seguinte. Voltaram os dois de Brasília, ele e ela, sem Volkswagen mesmo. O marido perdoou a esposa prevaricadora, e a esposa, livre da prevaricação, tomou fobia pela cara do ex-amante, e o ex-amante tomou pifões em diversos bares e escreveu cartas que os suplementos literários publicavam.

Recusou oferta de um emprego em Brasília. Volta e meia os governantes querem prestigiar a classe e convidam tudo quanto é intelectual para os gabinetes. Em uma dessas ondas, veio o convite e seguiu a recusa:

-Vim ser escritor no Rio, e não funcionário em Brasília!

Atitude e a frase eram dignas de figurar na Enciclopédia Britânica, e, por causa disso, pediu R$ 500 ao amigo: estava na negra. Precisava encher a cara, uma infiel de Ipanema. Dera-lhe sopa no teatro e bolo no dia seguinte.

-Como pode, hein?

-Mulher é assim mesmo.

-Mas elas mudam tanto!

-Isso já está em ópera.

Não foi beber com os R$ 500. Foi é enfrentar um macarrão com bastante queijo, matar a fome de dois ou três dias.

E, dois ou três dias depois, ameaçou suicídio. Uma mulata fatal, de olhos enormes, carnuda. Tomou enorme pifão e tentou a morte: pulou da janela.
Mas não morreu nem se feriu: dois meses atrás morava num oitavo andar, agora morava no chão -a altura da janela não deu nem para curar a bebedeira.

Agora sim, iria escrever um romance. Todo mundo acreditou no romance, inclusive ele.
Comprou resmas de papel, máquina portátil, fez um esboço que chegou a publicar. O livro passou a ser citado. Duas ou três passagens conhecidas de relato oral foram incorporadas definitivamente aos melhores momentos da ficção nacional.
Raspou e deixou crescer a barba inúmeras vezes, amou e foi traído, pulou janelas e empregos, foi envelhecendo e perdendo a pinta de menino prodígio, os olhos ficavam baços atrás das lentes cada vez mais grossas.

Pelas madrugadas da cidade, é agora um vulto que passa sempre às mesmas horas e nos mesmos lugares, procurando público e amor. Qualquer um dos dois serve: tanto o amigo que ouvirá mais um trecho do romance que ainda não escreveu como a moça que lhe despertará paixão, ciúmes, novas e sofridas epístolas.

Some pela rua escura. O passo é nervoso, ligeiro. Tem ainda a agilidade do vendedor de amendoim. E o cansaço do homem grande que o vai envolvendo em silêncio e tornando cada vez mais obstinada a vontade de ser feliz.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Qual o nosso limite? - FERREIRA GULLAR

DO LAMENTÁVEL episódio em que cinco rapazes de classe média, moradores da Barra da Tijuca, roubaram e espancaram brutalmente uma empregada doméstica, vale destacar a atitude do pai de um deles, que correu imediatamente em defesa do filhinho de 19 anos. Alegou que aqueles rapagões, sarados e violentos, eram "crianças que estudam" e por isso não deviam ficar presos, uma vez que, na prisão, seriam misturados com bandidos.
Deve-se concluir que, embora sendo capazes de roubar e espancar mulheres, rapazes que moram em condomínio da Barra da Tijuca não são bandidos, já que bandido é quem mora em favela. Isso ajuda a entender o filho que ele tem.
Se não é justo atribuir essa atitude a todos os pais de classe média, é impossível não ver nela o sinal de uma visão que se generalizou e que, de certo modo, explica o grau de impunidade que caracteriza a sociedade brasileira.
Na frase daquele "paizão", está implícita a noção de que o respeito às normas sociais é coisa secundária e mesmo condenável, porque, no fundo, encobre o ranço repressivo que herdamos do passado e a vontade de vingança contra os criminosos. Isso é uma coisa que estou cansado de ouvir da boca de advogados e até de ministros da Justiça, muitos deles herdeiros da lição rebelde dos anos 60-70: "É proibido proibir", "Não acredito em ninguém que tenha mais de 30 anos".
Tudo isso era muito divertido, mas a verdade é que contribuiu para minar o princípio de que a sociedade necessita de normas, já que, sem elas, mergulharíamos no arbítrio, na violência e no caos.
Ainda não chegamos lá, nem chegaremos, porque a maioria das pessoas sabe, sem ter lido os juristas, que o respeito às normas é condição básica do convívio social. A Justiça não nasce no fundo do quintal, ela foi inventada pelo homem que necessita dela como do ar que respira. Mas isso não impede que, como no caso do Brasil, o respeito à Justiça e a aplicação das leis sejam vistos como expressão de intolerância e repressão.
Isso se percebe a cada momento e às vezes na boca daqueles que deveriam defender a aplicação rigorosa do princípio de justiça. Não consigo me esquecer das declarações do então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos defendendo o abrandamento da punição dos crimes hediondos, sob a alegação de que seu agravamento não fizera diminuir esse tipo de crime.
Ao ler tais declarações de um jurista, pensei comigo: se esse argumento é válido, então deveríamos revogar o Código Penal, já que sua vigência não impede que se pratiquem crimes no país.
Como se sabe, o condenado por crime hediondo, que até então não usufruía do direito de cumprir apenas um sexto da pena, agora usufrui, graças a uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, bandidos queimam vivas dezenove pessoas dentro de um ônibus, são condenados a 400 anos mas, como a pena máxima no Brasil é de 30 anos, poderão estar soltos depois de cumprir apenas cinco anos, isto é, um sexto da pena. Noutras palavras: em muitos casos, a pena máxima, no Brasil, é de cinco anos.
Parece brincadeira. E isso tudo é decidido apoiado em argumentos de difícil compreensão para nós, leigos, que não gozamos da sapiência jurídica. O fraseado estrambótico escapa à nossa compreensão, enquanto sua conclusão nos deixa indignados. Dá a impressão de que o aparelho jurídico que montamos e que nos custa tão caro existe para dificultar a aplicação da Justiça e beneficiar os criminosos.
Certamente não é assim, já que a maioria dos juízes defende a vigência da Justiça. Não obstante, na prática, prevalece a impunidade.
A garantia da impunidade conta com todo um aparato, que vai desde a falta de escrúpulos do advogado de defesa -cuja função parece ser impedir que se faça justiça- até as minudências jurídicas que, na hora H, anulam o processo.
- Mas por quê, meritíssimo?
- Ele pôs vírgula entre o sujeito e o verbo! Dura lex sed lex.
Isso sem falar naquele juiz que adulterou o parecer do colega para permitir que se libertasse um dos maiores traficantes internacionais. Condenado a 20 anos por tráfico de drogas e respondendo a processos por evasão de divisas, contrabando, falsificação e apropriação indébita, foi solto por ter, segundo o referido juiz, bons antecedentes.
Bons? Pois eu diria ótimos antecedentes, levando-se em conta a noção de ética que vai tomando conta do país.

domingo, 5 de agosto de 2007

Considere este post - CECILIA GIANNETTI

APESAR DE o brasileiro médio só ler 1,8 livro ao ano e de, em 2006, termos sido chamados pela revista britânica "The Economist" -finalmente, o reconhecimento internacional- de "nação de não-leitores", as festas literárias multiplicam-se com sucesso pelo país.
No rastro da Flip, que acontece em julho, em Paraty, surgiram eventos como o Off-Flip (também em Paraty, no mesmo período de julho), Flap! (entre 29 de junho e 1º de julho, em São Paulo), Flop (Ouro Preto, Minas Gerais, novembro) e Fliporto (Porto de Galinhas, Pernambuco, setembro), entre outros.
Se eu pudesse iria a todos, é sempre divertido -os bastidores costumam ser uma versão mais aloprada da WordFest de "Garotos Incríveis", do Michael Chabon.
Mas fugiria pra tomar ar fresco (também conhecido como chope) durante qualquer debate em torno do tema literatura on-line, literatura de internet ou literatura de blog. Apesar de tal coisa não existir, o assunto é recorrente.
Existem blogs literários; existem sites jornalísticos dedicados à literatura; listas de discussão e fóruns on-line em que os usuários trocam opiniões sobre seus textos de ficção em críticas informais.
Há ainda iniciativas como a da editora inglesa Penguin Books, que lançou o blog A Million Penguins, no qual cada usuário cadastrado podia escrever um capítulo ou pedaço dele, e também reescrever partes desenvolvidas por outros usuários, resultando numa história totalmente criada pelos internautas.
Mas não existe uma "linguagem de literatura de internet". Pode existir, por exemplo, uma história que se desenvolve por meio de trocas de e-mails.
Mas não passa de um romance epistolar ambientado no século 21. Ficções curtas em posts podem ser publicadas em papel, permanecendo como ficções curtas, sem qualquer prejuízo em relação ao original. E continuará não existindo a tal da literatura de blog.
Por enquanto, o que existe é a internet como caminho para o escritor chegar ao leitor, às vezes antes que possa publicar em papel.
Há dez anos, um autor jovem, desconhecido, não tinha meia dúzia de leitores fora de seu círculo de amizades.
Hoje, se o que produz on-line é interessante, em pouco tempo seu blog ganha pencas de leitores. Ou ao menos mais do que meia dúzia deles.
E tudo isso antes que tenha um livro lançado. Por outro lado, a web não encurta o caminho até a publicação -a maioria dos editores não tem o hábito de fuçar blogs literários em busca de autores novos.
Não existe a literatura on-line como gênero.
Não existirá até que surjam histórias na web impossíveis de serem contadas no suporte livro -sob o risco de, impressas, virarem outra coisa que não é absolutamente o que se propunham ser na internet.
Aí, caso se reconheça e popularize essa ocorrência extraordinária de literatura intransponível para o papel, valerá debater o surgimento de um novo nicho.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Educar com esperança – Rosely Sayão

"Mãe, posso ir até a casa do Paulinho? Ele me chamou para jogar bola até a hora do jantar", pediu o garoto de quase dez anos. O amigo morava em frente à sua casa, e a mãe autorizou por telefone, não sem antes dar ao filho as orientações que julgou necessárias. Essa mãe agiu de modo sensato e responsável nas duas atitudes que tomou.

Ao permitir que o filho saísse de casa sozinho, mesmo para um curto trajeto nessa idade, ela o incentivava a se apropriar do espaço público e a construir autonomia para ir e vir dos lugares. Ao passar as orientações, ela realizou a tutela necessária, já que criança e adolescente ainda não costumam planejar suas ações nem tomar determinados cuidados, a não ser quando alertados. A mãe ajudou o filho, portanto, a aprender a se cuidar e a administrar a autonomia que ela o estava ajudando a construir para ver como ele responderia. Essa é a atitude mais educativa: passar responsabilidades e aguardar para ver como a criança reage.

"Não atravesse a rua fora da faixa de pedestre, não corra, não se desvie do caminho e não volte para casa depois do horário", foram as instruções da mãe antes que ele desligasse o telefone e saísse de casa -provavelmente correndo.

Ao determinar o modo como o filho deveria agir, a mãe foi cuidadosa porque forneceu ao garoto pontos de referência. Com as ordens, ela mostrou que ele deveria prestar atenção para realizar o trajeto com segurança; ao dar um limite para seu retorno, ela o responsabilizou por gerir seu tempo. Isso é educar para a construção de autonomia: ensinar o filho a se autogovernar, tutelando o necessário enquanto ele precisa.

O problema foi a forma como ela passou as orientações: partiu sempre do negativo. Esse é um cacoete comum em educação: pais e professores têm o mau costume de quase sempre considerar primeiro os erros que os mais novos podem cometer. Por que temos sempre de começar pelos problemas, pelos limites, pelos equívocos e pela ameaça de punição quando educamos? Podemos começar pela crença de que a criança procure acertar e descubra o espaço que tem para experimentar e encontrar soluções. A atitude otimista, aliás, é a única possível para quem educa.

Essa mãe poderia ter dito a mesma coisa pelo positivo: "Atravesse a rua na faixa, vá andando sempre rumo à casa do Paulinho e volte no horário combinado". Qual a diferença entre as duas formas?

A forma usada pela mãe sinaliza o que ela imaginou que o filho pudesse fazer, não é? Quando se diz a uma criança "não faça" é porque se credita a ela a vontade de fazer. Se não considero tal hipótese, qual o motivo para apontar o negativo? Acontece que nem sempre a criança apresenta a vontade que se imagina, mas, a partir do momento em que alguém aponta que ela possa ter, há grandes chances de ela realmente ter. Por isso é que o proibido é tão tentador.

Uma leitora contou que a filha, de quase dois anos, estava descobrindo a casa até que chegou à estante do pai, para quem os livros são muito importantes. Como as prateleiras chegavam até o chão, logo a menina quis pegar os livros. A mãe ajudou, explicou como manusear e finalizou dizendo: Só não pode rasgar. Pronto: logo depois, lá estava ela rasgando livros. Talvez a mãe não precisasse dar a deixa: poderia apenas ter ensinado os cuidados e, caso a filha rasgasse algum por acaso, aí sim poderia dizer que isso era algo a ser evitado.

Que tal passarmos a assinalar mais as possibilidades do que os limites quando educamos? Tal atitude demonstraria mais esperança em relação aos mais novos e talvez isso seja algo precioso para que eles percebam sua potência.

terça-feira, 24 de julho de 2007

A precisão e o pudor - BIA ABRAMO

Na noite do acidente, o noticiário de TV errou muito, chutou ainda mais e, de maneira geral, revelou uma desajeitada falta de pudor.

O adjetivo mais repetido referia-se ao estado das vítimas, que não bastassem estar mortas, recebiam a descrição terrível -vamos declinar dela aqui- a cada menção.
O erro e a especulação são quase da natureza desse tipo de cobertura, bem como a desinformação proposital por parte dos envolvidos, a omissão e a falta de transparência de autoridades. É imprevisível, as condições de apuração são precárias e o trabalho do jornalista é o de se orientar, inclusive literalmente, entre os escombros.
Os números, por exemplo, custaram a se fixar - eram 162? 170? 175? A trajetória do avião até se chocar com o prédio também permaneceu misteriosa por boa parte da noite.
Nesse sentido, patinam todas as emissoras. Mas também acertam, no improviso, no acaso e no talento individual. A Bandeirantes e a Cultura ganharam em agilidade de reportagem; a Globo, tanto no "Jornal Nacional" como nos boletins que cortaram a programação que seguia num estranho estado de normalidade, em edições mais completas e mais consistentes.
O erro de tom, os deslizes nos detalhes, entretanto, são de outra espécie e envolvem, no fundo, uma concepção de que jornalismo se quer praticar. De novo, nesse sentido também todas desafinam. De editorialização da tragédia a sensacionalismo francamente sádico, havia de tudo um pouco e muito, mas muito mesmo, da famosa insensibilidade da mídia.
Não é para obedecer ao princípio de precisão que se repete, à exaustão, a informação de como deveriam estar os corpos depois de um choque e um incêndio de uma brutalidade, a bem dizer, inomináveis. Estamos na televisão e, portanto, eles são bastante visíveis -as imagens, a princípio, indecifráveis, iam pouco a pouco tornando-se legíveis.
O prédio em chamas, dificílimas de debelar, a cauda do avião, só ela, bem vermelha da pintura e com o logotipo da TAM, bem nítidos- o sentido, o horror, configurava-se a qualquer um que lhe dedicasse atenção.
Não precisava dizer, não precisavam dizer tantas vezes.

domingo, 22 de julho de 2007

Toque e arremetida - IVAN SANT'ANNA

As autoridades aeronáuticas divulgaram imagens, colhidas na terça-feira, do circuito interno de televisão do aeroporto de Congonhas. Elas mostram duas aeronaves A320, da TAM, se movimentando pela pista na mesma direção. Uma delas percorre o trecho coberto pela câmera em 12 segundos. A outra, em apenas três. Esta última era o fatídico vôo JJ-3054. Essa diferença é apontada como sinal de que o 3054 ia rápido demais. Diagnóstico errado!
A aeronave "lenta" estava pousando. A outra, arremetendo. Ou seja, o piloto da primeira fazia todos os esforços para parar, enquanto o comandante do 3054 lutava para adquirir sustentação e voltar a voar. Desde as primeiras aulas de vôo, nos aeroclubes, os pilotos aprendem uma manobra chamada "toque e arremetida". Pousa-se, acelera-se e decola-se de novo. No início, é estressante. O aluno acaba de aterrissar e o instrutor grita: - Arremete! - Nesse instante, é preciso levar as manetes (os aceleradores) à frente e decolar antes que a pista acabe. Com o tempo, vira rotina.
Os passageiros mais voados costumam passar pela experiência de uma arremetida duas ou três vezes na vida. Já os pilotos de jatos comerciais fazem isso centenas de vezes, nos simuladores de vôo. Portanto estão aptos para isso. Já sabem, de cor e salteado, as providências necessárias para abortar um pouso e reiniciar o vôo.
O que interessa descobrir, no caso do JJ-3054, são as razões que levaram o comandante Di Sacco a arremeter o Airbus. E, principalmente, por que motivo essa arremetida não deu certo, fazendo com que a aeronave guinasse para a esquerda, ultrapassasse o limite do campo e, sem ganhar a sustentação necessária para voar, saltasse sobre a avenida e se chocasse contra o prédio do outro lado.
Na cauda do A320 havia duas caixas-pretas, recuperadas pelas equipes de investigação. Uma delas, o CVR (Cockpit Voice Recorder), grava as conversas travadas na cabine de comando nos 30 minutos que antecederam o desastre. A outra, o FDR (Flight Data Recorder), registra os procedimentos adotados pelos pilotos no vôo.
Neste momento, nos Estados Unidos, um perito já deve estar se debruçando sobre os dados dessas caixas-pretas. Ele irá descobrir, sem dificuldades, o que aconteceu nos momentos que antecederam o desastre. O avião pode ter aquaplanado (na pista novinha, lisa feito um sabonete, inaugurada e posta em funcionamento sem as ranhuras), pode ter chegado ao solo com velocidade excessiva, algum equipamento (um reverso, por exemplo) pode ter falhado ou algum instrumento pode ter apresentado uma leitura errada. São diversas as hipóteses.
A segunda resposta (porque o A320 não atingiu a velocidade necessária para decolar) também está gravada nas caixas-pretas. Hesitação, ausência de um procedimento (recolher os freios aerodinâmicos, por exemplo), um comando errado. Tudo está lá e vai aparecer. E entrará para os manuais da aviação, será ensinado nas escolas de vôo. Entre todas essas especulações, uma conclusão já pode ser tirada: os pilotos do JJ-3054 estavam no pior dos mundos: muito rápidos para pousar, muito lentos para arremeter.